16.1.08

Desde Aqui

Há mais de um ano li uma entrevista de António Tabuchi (gostava de a encontrar para fazer o link – a ligação azul). Dizia aquele que escreveu, ou melhor, ditou, o seu último livro no Alentejo, num monte, a uma hora e meia de Lisboa e realmente concentrado na tarefa. O facto não tinha nada de especial e – à excepção do livro ter sido ditado, segundo contou, a uma rapariga (a palavra dita por aquele homem que há trinta anos escreve em Português perfeito e fala com um despreocupado sotaque italiano, sugeria, inescapável sugestão, "uma bela e jovem mulher" ((entrada do dicionário de sexagenário para "Rapariga", até porque nessa idade, quando já se viveu o que é suposto ter-se vivido, atinge-se aquele estadio (((não estádio, embora nesse caso se merecesse um cheio, em pé, aplaudindo))) do conhecimento do nosso gosto pelas mulheres – não confundir com o conhecimento delas – em que se aprende que não há raparigas
feias, há é homens sem imaginação ((((variante da frase – não sei se de Balzac ou de outro folgazão clássico que dizia "deixai as mulheres bonitas para os homens sem imaginação"). Nada de especial, nem mesmo a rapariga. Tal como a maior parte das coisas em que reparamos não têm mais nada de especial a não ser o facto de termos reparado nelas. O especial dessa entrevista é que tinha a ver com o meu futuro ou com o que eu queria, sem me ter dito isso ainda, que ele se tornasse. Passou-se um ano e meio e sei que fui criando as razões que me empurraram para aqui em Estremoz, sobrepondo-as ao querer – ainda sem argumentos como depois se tornaram as razões – que me fizera reparar na entrevista. Hoje janto mais uma vez no Isaías (procurarei outra vez a ligação azul), deixei no monte uma aguarela a meio - ver foto - e escrevo desde aqui (gosto deste desde, vem das cartas escritas no tempo em que existia verdadeira distância e onde ((esse tempo é também um lugar)) a nomeação do do sítio que se seguia ao desde, era importante para o destinatário da carta a quem o bom epistulador deveria proporcionar o encanto do lugar da distância). Escrevo desde o Isaías neste quinze de Janeiro, vésperas do regresso muito contrariado a Lisboa para dois julgamentos até ao final da semana em que de novo voltarei. À minha frente jantam três rapazes. O último a chegar faz anos, chama-se Joaquim, quinzinho, porque nasceu no dia quinze de Janiro às tantas e quinze,logo: quinzinho. É este o lugar da entrevista, é este o lugar onde queria estar para escrever desde aqui. Começo a escrever, inauguro um Moleskin de linhas, primo dos outros, com papel de aguarela onde ontem desenhei aqui (não se diz desenho desde aqui), com a mesma fuga de ideias de que gosto nos desenhos e que gostaria de conseguir não perder no que escrevo – daí a pretensão dos parênteses dentro dos parênteses, quando já não chegam os travessões. Até amanhã Santiago, Vicente e Carolina, amanhã o pai já está outra vez em Lisboa.





3 comentários:

BlahBlahBlah disse...

«[...] a maior parte das coisas em que reparamos não têm mais nada de especial a não ser o facto de termos reparado nelas».

Não sei se concordo. Quando isso acontece é porque há ali um "je ne sais quoi", uma qualquer indescritível marca que, depois de processada pelos nossos sentidos, a fez transcender a habitual indiferença e invisibilidade que habitualmente concedemos ao que nos rodeia. Mas, a frase é linda.

Quando é que continuas a pôr a escrita em dia??

Tiago Taron disse...

Obrigado, blah, dás-me razões para continuar a pôr em dia o que está muito atrasado.

Ana disse...

Há um magnetismo inexplicável que nos leva a reparar mais numas pessoas e coisas do que noutras pessoas e coisas. É como se elaas fizessem parte da nossa memória genética e com essas determminadas pessoas e coisas tivessemos tido um passado comumm ou história que nós próprios não conseguimos explicar. Basta um olhar...basta um aroma...basta a forma...por isso é que é tão fantástico não perceber nada e cada dia vir embrulhado numa corrente de coincidências e encantos surpreendentes.