7.11.09

GRIPE A, Porquê Eu, Porque Não Eu?






Na passada Quarta Feira enfiaram-me uns cotonetes pelo nariz e fizeram lá no fundo da língua o mesmo. É uma análise que tem um nome sugestivo, herdado do tempo em que não se punham paninhos quentes nas palavras: zaragatoa. Não custa nada, a única coisa que custa mesmo é a infinidade de torturas que podemos imaginar entre o momento em que nos informam que vamos fazer uma zaragatoa e o momento em que nos fazem a zaragatoa (...e pagar).

Como não se fazem análises à Gripe A nos Hospitais vou a um Laboratório, tal como na Segunda Feira foi o meu filho mais novo que tem seis anos, a que sucedeu o primeiro resultado positivo na família e que desencadeou a corrida às análises dos restantes quatro irmãos, do pai e da mãe, da avó, tios primos e visitas da casa, que apesar de não existirem gosto de invocar como se existissem, pelo que soa a boa e velha burguesia rural.

Decido narrar estes factos apesar da repulsa que tenho pelos assuntos das doenças, sobretudo quando a partir de certa idade se tornam tema dominante das conversas, perdendo-se o pudor e o decoro como aos seis ou sete se perdem os dentes de leite. [Um amigo Espanhol falava-me da expressão dar uma "pancada", por eles usada para significar o conselho gratuito que se pedia ao advogado ou ao médico. A propósito da pancada (palavra que voltava a dizer a cada vez que me ligava para pedir um conselho ou fazer uma pergunta relacionada com o meu trabalho) contava-me uma pequena história, aparentemente para me pôr à vontade para o mandar à fava, na verdade impedindo-me de o fazer, sob pena de o tratar como uma das personagens dessa história que era a seguinte: Num jantar uma senhora fica ao lado de um médico. A meio do jantar a senhora começa a falar das hemorroidas do marido, que a ouve cabisbaixo. A certa altura o médico interrompe-a e pergunta-lhe se quer mesmo que ele a ajude quanto a isso. Ela responde que sim, ao que o médico lhe diz, então peça ao Senhor seu marido para nos mostrar isso. Agora? Sim agora. Aqui? Sim aqui. A conversa acaba ali.].

Os factos resumem-se ao seguinte:

Na passada Terça Feira fiz a tal da análise. No dia a seguir telefonaram-me do laboratório e antes mesmo de dizerem o resultado perguntaram-me como me sentia, como era o meu estado clínico. Percebi o resultado e atalhei a conversa perguntando desnecessariamente à Senhora preocupada: - quer dizer que então é positivo o resultado? Disse que sim. - O seu e o da sua mulher. Atalhei ainda mais a conversa. - Boa tarde, obrigado. Desliguei o telefone e pensei, vou para casa, esperar, vou esperar em casa, vou esperar sentado.

No trajecto vou à farmácia e compro o Tamiflu com a receita que trazia de prevenção por causa dos três maços por dia, de seguida compro um pacote de Gauloises, duas garrafas de vinho branco, umas entradas daquelas típicas de quem não cozinha mas gosta de ter uma mesa apetitosa, nem que seja no braço do sofá. Chego a casa e começo então a espera, preparo-me para o eu que não imagino mas em que me transfiguro com a febre, como aquele que há um ano erscreveu aqui isto.

Hoje é Segunda, passaram seis dias desde a análise e, em princípio, dez desde que o bicho entrou. Apesar de algum descoforto e atordoamento nada de especial se passou, não cheguei a ter febre, as dores no peito foram mais psicosomáticas do que dores e o "estado de desorientação", como lhe chamaram na linha da gripe, é apenas uma variante do meu estado habitual.

Conto isto tudo porque estou convencido (o convencimento da fé) que o tal Tamiflu - tomado imediatamente após o resultado da análise de forma a que actue nos primeiros dias de disseminação do vírus - terá sido a explicação para os dias benignos e quase felizes (não fora a expectativa de um mal maior à espreita) que levo em casa.

Conto isto para dizer o mesmo que procurei hoje perceber se era do conhecimento da tal linha da gripe. Perguntei à eficiente Enfermeira que me atendeu se estavam a registar a informação que cada pessoa lhes dava sobre o seu caso concreto (tempo de incubação, data da análise e primeiros sintomas, reacções ao Tamiflu, febre ou não febre, casos de ausência de febre, etc.). Perguntava isto porque estava convencido que essas linhas funcionan quer para informar quem liga, quer para informar quem atende do que se está a passar, em tempo real, habilitando quem esteja a tratar do assunto da informação essencial para lidar com ele.

Percebi que não. A única coisa que fica registado são os nossos dados pessoais, o nome a morada e o telefone, o resto é "palha", ou seja, o que eu digo sobre o meu caso, o que eu conto sobre as análises que fiz na Terça e o Tamiflu que tomei na Quarta, o que relato sobre a ausência (até ao momento) de febre ou qualque outra moléstia mais grave típica das gripes, atribuindo o sucesso ao tal do Tamiflu, tudo isso é ouvido como se fosse conversa a mais e desnecessária, jáque se não tenho nada de procupante estou a embaraçar a linha. Desligo.

Volto ao meu casulo em que tornei a casa omnde "no pasa nada" a não ser os filmes da TV Cine, o homem ds Pizzas ou do "No Menu", e nós como na música do Sérgi Godinho, à espera do ocombio na paragem do autocarro.

Passaram-se cinco dias desde a análise e, muito provavelmente onze dias desde o contágio. Segundo dizem o período de incubação (e também aí não parece existir consenso que permita uma informação objectiva) é de cinco dias. Também segundo dizem o período de doença é de quatro a sete dias. Até agora nada de especial, apesar dos tais três maços por dia (agora reduzidos drástica mas não totalmente a meio maço, para que o organismo não se ofenda com a hipocrisia).

Uma coisa parece-me evidente: as análises deviam ser feitas em qualquer hospital nos casos de risco, ou seja nos mesmos casos em que a vacinação está programadas ou aconselhada. Se a eficácia do Tamiflu é a que dizem (e a que parece ter tido no meu caso) e se essa mesma eficácia depende da circunstância de ser tomado logos nos dois primeiros dias do início da actividade do vírus, então parece elementar que essa análise seja proporcionada a quem se diz que lá mais para a frente terá de ser vacinado. Para terminar. O preço das análises varia entre os 40 Euros e os 100 Euros e parece que não são comparticipadas. Não percebo isto. Sinceramente não percebo.

2.11.09

ANTÓNIO SÉRGIO e DON’T WALK AWAY IN SILENCE

Atmosphere, ouvida hoje aqui:

A mesma música voltou várias vezes ao longo dos anos desde que a ouvi pela primeira vez.

A primeira vez que se ouve uma música nunca é a primeira vez.

Esta só a ouvi pela primeira vez quando a senti totalmente minha

No mesmo tempo em que sentia totalmente meus alguns parágrafos do Livro do Desassossego ou de Baulelaire, nos mesmos fins de tarde que eu sentia totalmente meus e desabitados de quem eu tanto queria que existisse para os repartir comigo.

Don't walk away in silence, era ouvido enquanto caminhava com um sobretudo que era o primeiro que tinha comprado, justificado pelo frio que fazia muito mais em Coimbra que em Cascais, pretexto de um miúdo que com 19 anos dizia à sua namorada: mas eu sou um miúdo não vou comprar um sobretudo. E comprei e com ele senti-me a caminhar sozinho e a contrariar com uma forçada rebeldia o conselho que sabia profético para tudo o que viria a seguir: DON'T WALK AWAY IN SILENCE.

A voz de António Sérgio tinha tudo a ver com essas coisas que julgava só minhas e era a única voz que não interrompia as canções que tinham aquela tonalidade dos anos 80 e dos jardins de Coimbra e dos fins de tarde de Inverno do pontão de Cascais. A voz vinha do mesmo lugar.

Deixei de habitar esse lugar de onde vinha essa voz. Estou convencido que o abandono desse lugar se ficou a dever à lei da sobrevivência na sua expressão mais pura. Nesses anos em que habitava a intensidade da canção dos Joy Division, continuada pela voz de António Sérgio, ambas revelando que aquilo era mais do que um ambiente, ou inspiração, era uma forma de vida a que os outros (como eu) chamavam estado de espírito, um estado de espírito em que se pode viver nos nossos 18, 19 ou parte dos 20 anos, mas que depois não se aguenta e depressa cede ao "não estado de espírito" que rapidamente se torna condição de viabilidade, de funcionabilidade nas tarefas que progressivamente vamos tendo para desempenhar.

Nunca conheci o António Sérgio mas sinto que era dos últimos guardiões desse estado-de-espírito que não consegui aguentar mais do que o tempo do fim da adolescência. A cada vez que o ouvia, o timbre da sua voz era o suficiente para eu perceber a distância a que entretanto estava do tempo em que eu sentira que sentia de verdade.

Hoje ouço a música dos Joy Division, postada pelo Diogo Leote no "é tudo gente morta" e é um enorme tributo. Ouça-a outra vez e dou por mim a pensar que quem foi embora em silêncio fui eu, em silêncio, há muito tempo, sem conseguir continuar o lado sombrio e rebelde daqueles anos, sem o ter explorado até ao último resto de estilo desse cepticismo blazzé, desencantado e profundamente elegante. Penso nisto, releio a frase do Diogo sobre as vezes que encontrou António Sérgio a almoçar sozinho num Restaurante, "com o seu estilo inconfundível entre o rocker e o cow-boy" e parece-me evidente que viveu muito mais do que eu que há muito me fui embora em silêncio.

Obrigado Diogo pela lembrança do Rools Rock, obrigado pela revelação desta música hoje, que se pode ouvir aqui, no caso de alguém querer tentar compreender poque só hoje, com ela e com a morte de António Sérgio, eu entendi estes últimos versos da canção:

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don't walk away in silence,
Don't walk away.

1.11.09

Angústia ao Jantar (de Domingo)

Regresso de Carnide, de mais um bife na pedra que tem entrada directa na lista das coisas que não se contabilizam, como o nº. de vez que corresponde ao lavar dos dentes que se seguirá ao que agora escrevo. Chego a casa e tenho a flutuação do vinho verde alter(n)ada com o cansaço que para já não sinto mas que existe e se revela como evidência para todos menos para mim, que não me levo a sério quando mais preciso de o fazer. Faço o percurso netiano habitual: vou ao FB vejo o que há e o que há tem sempre um travo meio amargo que não sei de onde vem mas que é igual ao sabor amargo que sentia quando ficava a jogar muito tempo os flippers na Pompadour em Cascais. Agora vou continuar a pintar, pelo menos não tenho de me explicar e, sobretudo, é a actividade que mais deliga o pensamento. Pensar é para mim quase tão entediante como tocar guitarra, que a toco igualmente mal, adormecendo sempre, a meio de uma música, a meio de uma ideia.

20.10.09

Piove

Chove outra vez
E o sossego a que me devolve este tempo? É como voltar a calçar uns sapatos confortáveis depois de ter esquecido o que isso era. Não que goste da chuva, é mais fácil gostar dos dias luminosos, mas que hei-de fazer, não são como eu e eu gosto de me sentir em casa

14.10.09

Maité Proença

Desde que tenho este blog que leio o dos outros e incoporo-me muitas vezes naquela que é uma espécie de segunda realidade que são os assuntos do momento neste lugar (internet). Há as notícias dos jornais e as notícias que nascem dos movimentos tipo "onda" na internet e que são para mim uma espécie de "second life" da realidade. Em cada semana aparece um novo tema a que muitos (eu incluído) dedicamos os nossos melhores ódios ou amores, às vezes escrevemos coisas que gostariamos de ler em casa - no meu caso, se alguém ainda tivesse pachorra para as ouvir e se a esta hora ainda restasse alguém acordado.

Esta semana o assunto foi o vídeo da actriz Maité Proença. Passado um dia da consagração apareceram os primeiros comentários nos jornais, nos lugares da realidade real. Leio vários e volto a constatar a tendência dos autores dessa realidade em fazerem a batota que consiste em fora deste ambiente - que hoje alguém comparava ao ambiente dos que escrevem coisas nas portas das casas de banho - falarem a sério desses casos e pronunciarem-se sobre o pronunciamento dos outros, feito naquelas portas.

Criticar a reacção a que se assistiu na net contra o vídeo da Maité Proença é, para mim, ainda pior que o comentário anónimo, ordinário e ofensivo que se escreve na porta da casa de banho. Porquê? Porque é batota. Porque quem escreve na net o faz no silêncio e privacidade da sua intimidade, burrice, falta de gosto ou de instrução, anónimo ou não, expressa o que sente ou adere à expressão do sentimento dos outros. Quem escreve num jornal ou fala na televisão, não está nesse registo e não deveria confundir o seu registo de profissional com o registo dos milhões de pessoas que dizem o que lhes vai na cabeça. As responsabilidades (ou as irresponsabilidades) são diferentes.

Por isso pouco me importa que seja público e notório que no brasil o Português seja o Alentejano das nossas anedotas. Ninguém mais do que os alentejanos se riem das anedotas sobre si próprios. Pouco me importa também que se diga que a reacção na net ao vídeo revela inseguranças ou complexos, que os filhos de boa gente, quando sentem, dão "ao desprezo", como agora se diz. O que me importa é que quem num jornal ou televisão critica um movimento destes, está a esquecer o fundamental nesta história do vídeozinho. Uma coisa é a rua, a net, o bairro, a bogosfera, como lhe queiram chamar, outra é um canal de televisão feito por profissionais pagos, ou um jornal, feito com o mesmo. O vídeo da Maité Proença não teria qualquer problema se tivesse sido feito para ilustrar aos amigos ou na sua página da net o que foi a sua última ida a Portugal, já quando passa num dos canais com maior audiência do Brasil e que é o canal a quem o nosso canal de serviço público (RTP) mais compras deve fazer, então, olhar para o lado e fingir que não se viu é, salvo o devido respeito, presumir uma superioridade que eu não tenho. Bem sei que responder é colocar-me ao nível - ainda que insista que a resposta deva ser dada ao Canal da Globo e não à infeliz actriz, sei que é dar importância a um assunto que para os cool opinion maker não deveria ter qualquer importância, mas tem, para mim tem importância ver uma mulher a cuspir numa fonte dos jerónimos, não é crime, não é humor, é simplesmente porcaria (e acho que ainda é contraordenação segundo as Posturas Municipais de Lisboa, humor seria, aliás, o Senhor António Costa inatsurar um processo de contra-ordenação pela cuspidela, coimar a Senhora por... porcaria). Porém esta minha reacção não vem da mesma realidade do vídeo que passou no GNT. A minha reacção é na porta da casa de banho, o vídeo passou num canal nacional. A minha reacção é de um iletrado mais ou menos anónimo que manda uns bitaites, os comentários dos senhores jornalistas e analistas às reacções dos strumpfs da net (gosto mais da palavra que da de "povo da net") faz a batota de me comparar à Maité Proença e a Net à TV GLOBO. Se querem falar do assunto, senhores jornalistas e analistas, falem do assunto e não da reacção ao assunto, se o assunto para vocês não tem dignidade, deixem lá as reacções ao assunto, ou das duas uma: ou não me tratem como se fosse "Colega", ou assumem que não resistem a deixar a vossa assinatura na tal porta da casa de banho. Porém, neste último caso sempre vos diria, como diria se fosse o patrão da senhora Maitê Proença: Cuidado que nessa vossa realidade "À vontade não pode ser à vontadinha".

13.10.09

Ao Senhor do Circo:

Hoje de manhã acabei de acordar para a realidade enquanto ouvia o Fórum da TSF. Às vezes acordo assim, primeiro acordo um quarto de mim com o despertador, depois outro quarto com o cigarro + duche e finalmente com a trepidação dos jingles dos noticiários da TSF. Ouvi então a notícia sobre a Portaria que proibia aos Circos a aquisição de novos animais (à excepção dos que podemos ter em casa), assim como a reprodução dos existentes. O trânsito começou-me a incomodar ainda mais, estar forçado a estar parado somava-se à impossibilidade de gritar contra a hipocrisia dessa medida. Para complicar a situação a TSF começou a transmitir o seu habitual FORUM dedicado ao esse mesmo assunto. Continuava parado e ouvia agora as intervenções dos ouvintes. O desconforto crescia, anotei o número da TSF para ligar mal chegasse ao escritório, a certa altura ouvi um Senhor a falar, chama-se Vitor Hugo Cardinali e apeteceu-me deixar o carro mesmo ali, na fila da Escola Politécnica que não avançava e correr para o escritório. "desculpe mas tenho de fazer mesmo isto, não está a ouvir a rádio". Lembro-me nestas alturas do que e minha mulher diz sobre as personalidades que são mais atreitas ao enfarte, estou a fazer tudo ao contrário, mas quando se faz já tanto ao contrário mudar uma só coisa não adianta nada e acendo mais um cigarro.

É muito fácil dizer mal do Circo, é tão fácil que qualquer pessoa medianamente honesta deveria deter-se ante essa facilidade. Adjectivos como "grotesco", "dantesco", miserável", "violento", "feio", "buçal", fluem em torrente ante a última lembrança de nós sentados no circo, já depois da idade em que era – e creio que não foi só para mim – não só o maior espectáculo do mundo, como o maior catalisador de sonhos do mundo (as fugas que eu imaginei, as paixões que tive e fantasiei, quase sempre com as meninas do trapézio).

É fácil achar tudo aquilo grotesco e até será esse o sentimento natural do pai que distraidamente acede aos pedidos dos filhos que querem ir ao circo, depois de ouvirem pela enésima vez o discurso estridente de um homem que trata todos com uma deferência que é para desconfiar "estimável público", "cavalheiros", "damas", "honra da vossa visita", reservando uma ainda maior cerimónia aos intervenientes do anunciado espectáculo "a belíssima e rebelde domadora de serpentes", o "príncipe dos magos", a "odalisca dos céus". Naqueles dias de chegada do circo esses anúncios conjugavam-se com o aparecimento dos cartazes com cores dos anos cinquenta e um estilo de desenho semelhante ao dos enormes panos que em cada cinema eram pintados à mão por alguém que trabalhava ainda mais no escuro que o homem da máquina de projectar (assim eu pensava) quando via os cartazes do cinema Rivoli (os que gostava mais eram os do Trinitá). Depois havia o local onde o circo se começava a montar e a admiração de todos que não resistiam a ir ver o que é que aquele circo trazia, em especial os bichos.

Nos últimos anos fui muitas vezes ao circo com os meus filhos e dei comigo a pensar isso mesmo. Isto não é para os miúdos, eu devia protegê-los disto, dos estrondos, das piadolas de mau gosto, da parte em que alguém da assistência é convidado para sair muitas vezes humilhado e com umas palmadinhas nas costas, da parte do número sem graça em que todos ficamos a olhar para o chão.

Porém, depois de passar o umbral do circo, o umbral dos primeiros minutos, quando o ambiente se reorganizava para reconstituir o ambiente do meu circo de infância (a banda, o cicerone apessoado e pedante, as luzes, a expectativa a ansiedade de todos perante o primeiro número de perigo), a minha primeira aversão cedia vencida pela força do regresso ao imaginário de miúdo e pelo regresso do ambiente de fantasia de que é feita uma pista de circo.

Das últimas vezes que fui ao circo tive consciência destes sentimentos contraditórios e acabei mesmo por desenhar todo um espectáculo, num dos blocos moleskine que no final da sessão ofereci ao meu filho mais velho e que ainda hoje diz que é dos meus desenhos o que gosta mais, como também diz, que foi dos dias que passámos juntos um dos que se lembra com mais saudade.

Comecei então a estar atento aos circos que apareciam nos locais onde estava e acabei por perceber que estava a viver os últimos momentos se uma realidade que já não pertencia a este real. As pessoas que fui conhecendo nos circos mais pobres e pequenos já não tinham lugar nesta época de escolaridade obrigatória até ao 12º Ano e de Cirque du Soleil com lotações sucessivamente esgotadas, baterias de luzes, som e bela juventude em doses completamente desproporcionadas com aquelas que eram para nós a nossa noção de circo. Philip Glass, em vez do Duo Ouro Negro, efeitos especiais de laser em vez do apagão motivado pelo desligar do quadro ligado ao gerador.

Há cerca de cinco anos almoçava num restaurante em Vilar de Mouros, na mesa do lado almoçava um homem só, muito só. Eu estava a desenhar por acaso uma imagem de um circo (o circo pelo qual tinha acabado de passar) e entretinha-me a colorir o desenho com as aguarelas que trazia no bolso. Como muitas vezes acontece acabámos por falar sobre o desenho que pediu para ver. Ofereci-lhe o desenho porque percebi que gostou sinceramente dele. Quando lhe disse que era para ele deu-se uma daquelas situações para as quais não há fórmulas de reacção e que me deixam muito aflito, paralisado. O homem a quem dei o desenho chorava. Olhava para o desenho e sem proferir um som, um lamento, um gemido, caíam-lhe as lágrimas pela face. Contou-me depois de pousar o desenho que era o dono do circo, que naquele dia se tinha desentendido com a mulher que lhe cobrava a circunstância de ter envolvido toda a família naquela aventura do circo em sempre tinha estado, primeiro ao serviço de outros circos, depois, quando conseguiu juntar dinheiro suficiente, há uns largos anos, adquirindo o seu. Tinha uma das tendas mais bonitas de circo que havia em Portugal, era pequena, mas era das antigas, com as franjas à antiga e a estrutura geométrica da nossa ideia de circo, a mesma que estava no desenho que lhe oferecera.

Dos vários filhos que tinha só um o acompanhava no gosto do circo, os outros sentiam-se obrigados e pretendiam, tal como a mulher, acabar com o sofrimento de percorrerem tantos Quilómetros para não terem dinheiro para o gasóleo de mais uma deslocação, para não terem que comer, tendo de dar prioridade à alimentação dos animais. Lembrei-me do funâmbulo Valenda, que acabou por morrer numa travessia do arame, açoitado por uma rabanada de vento mais forte, na cidade de San Juan de Porto Rico. O mesmo Valenda que também acabou sozinho, depois de todos os filhos o terem sucessivamente abandonado, tal o risco a que estavam constantemente expostos por um pai que ia aumentado de número para número o grau de dificuldade.

Aquele homem contou-me muitas histórias do Circo, muitas e eu fiquei uma tarde inteira a ouvi-lo e só lhe deixei, como expressão da minha admiração, um pequeno desenho. Não fui capaz de lhe dizer mais do que: "se um dia precisar de alguma coisa, se eu poder ajudar em alguma coisa, sabe eu sou advogado, o que não quer dizer nada, mas teria todo o gosto em auxiliá-lo se um dia vier a precisar". Quando disse isto não sabia ainda o progressivo desencantamento que iria sentir com a minha profissão e que lhe estava a oferecer o que talvez hoje não lhe pudesse proporcionar. O Senhor do circo, saiu, foi buscar a carrinha do anúncio estridente, foi acabar de colocar uns cartazes nas redondezas e à noite vestiu mais de cinco fatos diferentes, repartindo-se entre a apresentação dos números e a execução de quatro números diferentes, número comum a cada um dos membros da sua família.

Hoje, ao ouvir aquela notícia e ao ouvir o Senhor Victor Hugo Cardinali, senti o que acabei de descrever, uma enorme impotência perante uma injustiça, aquele sentimento que não se explica mas que transforma a cor da atmosfera e o sabor que temos na boca como nenhum outro.

Mal cheguei ao escritório tentei ligar para a TSF, atenderam-me. Passados 15 minutos telefonaram-me de volta, ia já falar. Voltaram ao telefone, afinal era melhor desligar para não estar à espera, que voltariam a ligar em breve. Fiquei à espera, enquanto esperava perguntava-me o que iria responder que era, advogado ou pintor, sou mais pintor hoje do que era advogado no dia daquele almoço, e sou, sobretudo, muito menos advogado.

Passados dez minutos ligaram outra vez, pedindo desculpa, afinal já não havia tempo para falar, ficava para a próxima, muito obrigado, agradeceu impecável quem me ligou. Mas eu tinha de falar, nem que fosse só para aquela senhora tão educada e que conseguia falar devagar quando tinha certamente trinta chamadas em linha, ou trinta outras pessoas para lhes dizer o que acabara de me dizer. E falei:

"Não sabe a Senhora o que me custa não poder participar no programa. Era para mandar um abraço muito grande a um senhor de que não me lembro do nome e para lhe dizer que não desista. Era para dizer que nada disto faz sentido. Que neste país não existe uma lei que proteja os animais dos maus tratos. Atirar um cão de um décimo andar, como aconteceu há tempos em Coimbra, só foi crime porque o cão aterrou em cima de um carro, logo foi crime de dano sobre o carro (o cão não tinha dono). Quando há dois anos me pediram para apresentar uma queixa crime porque alguém com um tractor passou por cima de um rebanho de ovelhas, com o único intuito de fazer mal ao proprietário do mesmo, falei com os senhores que agora celebram a publicação desta Portaria e perguntei-lhes: O que eu estou a constatar é verdade? É mesmo verdade que se eu matar um cão a pontapé na via pública não cometo crime nenhum? É mesmo verdade que se eu atirar um cão pela janela do carro junto a uma ponte, para que ele desapareça, nada me pode ser feito em termos penais? É mesmo verdade que neste caso das ovelhas eu apenas possa apresentar uma queixa por crime de dano? Relacionado com o valor das ovelhas? Responderam-me que sim, que era mesmo verdade. Fui então à procura da história deste vazio, deste indecente vazio e encontrei uma referência a um projecto lei que há anos havia sido preparado pelo saudoso Dr. António Maria Pereira", projecto esse que consagraria a ser aprovado uma primeira lei de protecção genérica aos animais. Minha Senhora, desculpe o tempo que lhe estou a tomar, mas sabe como é que foi recebido o Dr. António Maria Pereira quando entrou no Parlamento para apresentar o seu projecto, com alguns deputados a zurrarem. A lei não foi aprovada. Falei então com algumas Associação de Protecção dos Animais e procurei saber qual o empenho destas na aprovação de uma lei desse tipo. Percebi que não tinha interlocutores, que as Associações com quem falara estavam interessadas em "começar por algum lado" como pela abolição das touradas, o fim dos animais que não os domésticos nos circos, o fim dos gansos alimentados até sufocarem em si próprios para fazer fois gras. Desliguei e senti uma enorme tristeza porque estava, mais uma vez, tudo ao contrário.

Sabe, minha Senhora, era isto que eu queria dizer e que se existisse uma lei destas, que na maior parte dos países da Europa que imitamos existe, nada disto podia estar a acontecer. O Governo, as autarquias teriam de zelar pelo cumprimento da lei, se fosse de concluir que os animais não eram bem tratados então que se actuasse. Provavelmente as touradas teriam de acabar, por força dessa lei (o que se pessoalmente lamento tenho de aceitar que, em coerência, aconteça), agora o que não pode acontecer é o que acaba de acontecer hoje, esta tremenda injustiça. Mas era só mesmo para mandar um abraço às pessoas do Circo. Obrigado pela sua paciência."

Desliguei o telefone e lembrei-me de uma frase que li no outro dia, no blog de D. Funes: "As leis inúteis enfraquecem as leis necessárias". Pois é e o que é que fazem às necessárias as leis perversas? Matam-nas, adiam-nas e fazem pagar o justo pelo pecador.

9.10.09

OZONO


(aguarela sobre papel Arches 800 gr. 70 / 50)

E se me apetecer muito o ir para lá do buraco? Até porque o vejo branco e não negro como os outros.