O NOSSO TEMPO
Advertência: Eu desconfio das palavras. Não é bem das
palavras enquanto a modalidade em que mais nos exteriorizamos ao outro, mas das
minhas palavras. Não gosto da distância a que ficam do que quero dizer,
sobretudo quando escrevo. Mas não tenho outra maneira de procurar dizer o que
sinto ser dever, sem ser com elas, procurando que consigam trepar a outra zona
de inteligência que a reservada à lógica jurídica que as formatou num
inescapável advogadêz.
Eu falo advogadêz e isso é tramado, porque é uma língua que sem aviso prévio se
sobrepõe à que falávamos antes. Como o corrector ortográfico do meu computador
se sobrepôs ao anterior sem que eu tivesse querido e sem que eu agora o consiga
tirar, para continuar a escrever como sempre escrevi.[a minha principal
objecção ao acordo ortográfico nem sequer é por razões de defesa da língua viva
(expressão deliciosa) que é o Porrtuguêis do Brasil (que é o Português mais
vivo). Eu nem sequer tenho objecções ao
acordo ortográfico, porque é assim que a coisa funciona, é inevitável. A minha
coisa com o novo dicionário que sub-repticiamente se instalou feito um posseiro
no coração do meu word é que fica feio o ecran cheio de risquinhos vermelhos e
isto para não falar no incómodo do filho da mãe do coisó Plug in ou lá como
pulou para aqui, me estar sempre a interromper o raciocínio para
inconscientemente pronunciar a palavra como seria dita agora – ainda há pouco
isso me aconteceu quando escrevi peremptoriamente (que foi imediatamente
substituído por “perentoriamente”). Altera-me as palavras e quando releio as
coisas chego a duvidar, mas eu não escrevi isto, isto é um gajo desempenado e contemporaneissimo.
(A sério, sem ironia nenhuma. Fico por instantes com a sensação de “não é meu”, eu não tenho esta
actualidade).
Escrever sem sentir o atrito das palavras, isso é que eu
gostava de saber como se faz para escrever este Manifesto (só o nome irrita,
mas é a palavra que designa a sensação do ter de escrever uma coisa sobre este
estado de coisas por causa do que não eu sinto que não se diz dele). Escrever
sem ficar a olhar de fora para o que se escreve, sem a pôrra da forma. Escrever
a ideia sem ruído, directo, sem precisar do assobio do som das palavras ou da
geometria dos pensamentos dentro das frases.
Feita a advertência, que deve ter sido lida como se dita no
mesmo tom que os conferencistas pedem desculpa por não dominar a língua em que
vão falar, com educação e sem – assim espero – nenhuma da arrogância do Senhor
de há pouco. Aqui vai
Que é a nossa circunstância que somos nela e com ela. Sim. Que a
diferença entre mim e o meu filho mais velho é também do ser do tempo dele e do
ser do meu, sim também. À lotaria do lugar onde se nasce
acrescenta-se a do tempo em que se nasce e, pela história vivida em cinquenta
anos tem-se uma ideia do que acontece aos lugares com o tempo. Atrás deste
primeiro plano da noção do tempo (o que experimentamos directamente), sabemos
de um tempo anterior e conseguimos mesmo anular o mistério do antes do
nascimento (tão grande geometricamente o do depois da morte) através da
presença que sentimos em nós dos antepassados. Esse tempo anterior vai-se afunilando
até ao fim dessas memória pressentidas dos antepassados. Vem então a palavra
ancestrais e o espaço aumenta com ela, provavelmente pelo astral que a palavra
tem. Com o aumento desse espaço e o conhecimento que tempos da pequenez temporal dos últimos dois mil
anos da humanidade (um século não é uma eternidade, é o tempo que separa muitos
dos que estão vivos daqueles que são ou foram os seus avós), é a idade do
Manuel de Oliveira, são vinte vidas do Manuel de Oliveira. Se eu disser há
vinte vidas do Manuel de Oliveira nasceu Jesus, há qualquer coisa que estremece
em mim. Uma sensação de conta errada, da intranquilidade do que não bate certo
com o nosso entendimento do tempo. Mas é verdade. Foi há dez Manuel de
Oliveiras que se deu a fundação de Portugal, como nos ensinaram que aconteceu.
Quando nos falaram disso eramos crianças, mil anos era uma espécie de
equivalente a infinitos. Se pensarmos no Holocausto então custa-nos a imaginar
que os nossos avós tivessem sido contemporâneos desse momento, que tivessem
vivido aquilo em directo. Parece ter sido noutra vida, quase com outra
humanidade. Percorremos dois mil anos num instante, se tentarmos colocar essa
porção de tempo na escala do tempo dos Deuses. Se tentarmos imaginar qual o
tempo – se é que ele existe – do projecto da criação cristã até ao “juízo final”. Temos de concordar que nos
parece muito pouco, que estaremos muito longe, que estaremos ainda muito no
início. Compreendemos que outros povos tenham pensado tantas vezes na
eventualidade do fim colectivo próximo e tenham afeiçoado às suas escalas de
tempo as profecias apocalípticas. No nosso tempo a profecia apocalitptica já
não vem da bruxaria e está ligada à Ciência e a apresentações em power point
feitas por AL GORE. É por essa via que experimentamos a ideia do fim que está
em todos os apocalipses. Sabemos que essa é uma das possibilidades,
experimentamo-la ainda que inconscientemente, imperfeitamente, nas suposições
vagas do que será um fim desses. Assim, a primeira coisa que me parece evidente
é que o Nosso Tempo é muito curto para perceber o tempo da “humanidade”. Até porque sabemos das enormes
diferenças que a “humanidade” assumiu
nestes afinal tão curtos dois mil anos (romanos, árabes, idade média,
renascimento, romantismo, belle-époque, revolução francesa (foi há menos de
três séculos: a bisavô da minha avô poderia ter estado lá (a minha avó nasceu a
3 de Outubro de 1895, logo separam-me do nascimento dela 118 anos, 1895-118
anos, logo a sua avó poderia bem ter nascido em 1777, a tempo de assistir à
gulhotinagem de Maria Antonieta).
O que é que destinguirá o “nosso tempo”, como é que ele será
visto de fora, de aqui a dois mil anos? Bom, esse exercício é vizinho do imaginar
um fim colectivo. Porém e se o que destingue o Nosso Tempo, se aquilo pelo qual
se tornar conhecido nesse futuro em dobro ao que nós já vivemos desde o
nascimento de cristo, for qualquer coisa do nosso carácter actual que se
equivalha ao buraco do ozono do “apocalipse”? Qual o traço do nosso tempo que
se poderia considerar a replicação na humanidade daquilo que está a acontecer
na terra?
A minha primeira sensação é que esse traço é a ilusão do
homem ser a medida de todas as coisas. O homem individuo, o homem como uma
esperança de vida que delimita o que é mais importante no nosso tempo: o tempo
de vida de cada um, o tempo da esperança de vida de cada um. Se tentar
percorrer essa mesma sensação sem a assustar, consigo imaginar um tempo em que
o mais importante não fosse – para quem nesse tempo viveu – o tempo que
pessoalmente iria viver mas a sua participação num tempo maior, no tempo da sua
espécie, no tempo maior dos Deuses. Chego aqui e paro, começa aqui parte do
buraco negro, onde as ideias, mesmo as menos verbalizáveis, as que são só imagem,
deixam de existir de se poder formar.
Dita esta salganhada toda, o que me parece é que o nosso
tempo é o do princípio de um fim com estrondo de um individualismo que
provavelmente se exacerbou com a colocação do homem/individuo no centro de
todas as coisas, quando qualquer ser com um mínimo de pudor e – sobretudo –
instinto de sobrevivência, não se coloca no centro de todas as coisas. Sei
muito pouco de história, mas sei o que intuo do tempo que me foi contado.
O nosso tempo para mim é o do fim do “homem/individuo como
medida de todas as coisas”.
Visto o tempo assim, fico impressionado com a facilidade
como que nos excluímos do tempo em que estamos, e da nossa enorme cumplicidade
filial em relação a ele, apontando o dedo a Sócrates, a Cavaco, à Troika, à
Merkle, ao Senhor da Coreia. Somos nós., É o nosso tempo e parece-me mais ou
menos evidente que o que está a acontecer na Europa soa a princípio do fim de
um tempo muito mais longo do que nós possamos imaginar. Se tivermos de recuar
até que a primeira semente deste tempo em que o “homem/individuo” funcionou
como definidor da escala da nossa vida pessoal, o nosso tempo de vida, por
exemplo, teremos de recuar até outro buraco negro relativamente ao qual só
tenho uma muito vaga ideia que é a de que esse tempo seria em muitos aspectos
semelhantes àquele que virá. Ao pensar isso penso se o caminho não será agora a
marcha atrás do tempo e se não teremos de passar por uma nova idade média e não
nos teremos mesmo de preparar para os encantos dela. Porque sabemos que os tem,
ainda que esse tempo seja conhecido como “das trevas”.