6.12.09

A (i)ALMA DO JARDIM


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[A propósito de um comentário de Ricardo Noronha, publicado num blog que vale muito a pena, ver o blog aqui e o comentário aqui]


Um jardim de cidade tem essa particularidade do "non sense", no limite pode ser visto como um sonho urbano que vai sendo revisitado ao longo dos tempos, perdurando às sucessivas gerações, como as suas árvores.


Conheço a versão "jardim século XXI", conhecemos a versão jardim / CCB e jardim EXPO, conhecemos a versão Jardim / Versailles e conhecemos a evolução até do que se começou a chamar por "jardim zoológico". O que posso tentar dizer sobre o Jardim do Príncipe Real é que o o seu Romantismo no meio do brilho crescente da nova riqueza que começa a ostentar a Rua D. Pedro V e o Príncipe Real, constituía para mim uma espécie de assinatura daquele bairro.


Ora, ainda não começou a acontecer o que se anuncia para os próximos anos (a construção do Hotel, a recuperação dos prédios pela sociedade de capitais americanos que comprou grande parte da rua) e essa assinatura, essa marca do sítio que me deixava tranquilo quanto à permanência do mesmo (sítio) [ante o imprevisível das mudanças que se anunciam] é precisamente a que está ameaçada.


Tenho muitas expectativas (e boas) relativamente ao projecto da EASTBANK na zona (sociedade que adquiriu muitos dos prédios da D. Pedro V), gostei muito da aparição do Quiosque do Refresco na ponta do Jardim, das suas cores, do seu contraste com essa "alma" semi-decadente do jardim, aprendi também a gostar muito dos quadros de m. nagashima, que durante anos pintou aquela alma do jardim.


Agora, o que me move é a antecipação de um jardim arranjadinho, luminoso, menos denso e mais organizado, com os caminhos brancos demarcados, com a sua vegetação normalizada e aparada e imaginar as igualmente luminosas e arranjadas novas casas do príncipe real, e continuar a ver o novo Quiosque, agora sem contraste e em perfeita harmonia. Não consigo, porém, continuar a imaginar m. nagashima a pintar no meio disto.


O que me move é assim um mau presságio para aquele lugar que pode, de facto, perder a alma. Não digo que estejam a vender a sua alma, porque como já tentei escrever, não acredito nem preciso de imaginar intenções torpes ou negociatas – que acredito piamente não existirem, estão sim, seguramente, distraídos dela, dessa alma.


Na semana passada (quinta feira), um homem teve um ataque cardíaco num dos bancos do passeio do jardim, entre o Quiosque do Oliveira, em frente à banca dos jornais. O homem que no dia do corte das árvores se esforçou – e conseguiu – por não chorar aquelas que durante anos foram a sua sombra, tentou reanimá-lo fazendo-lhe a massagem cardíaca. A certa altura segurei-lhe na cabeça, porque tinha voltado a si. O Oliveira que continuava ofegante a fazer aquela massagem, disse-lhe: "já cá estás amigo, já estás de volta". Acho que vi o homem sorrir. Depois chegaram os médicos nas ambulâncias modernas, amarelas e velozes. O homem morreu junto daquele banco. Bem sei que o incidente nada tem a ver nem com o jardim, nem com a alma, nem com a defesa do património. Só conto esta história porque o cenário em que aquele homem morreu era desolador: um cartaz com os dizeres "as árvores morrem de pé", o gradeamento, os troncos decepados e ainda uma réstia daquela espécie de intemporalidade que o jardim ainda tem.


Se um dia tiver de morrer num jardim queria que fosse no jardim como ele era e não naquele que se anuncia e se pode pressentir que chegará.


Peço desculpa pelo despropósito do exemplo mas é o mais próximo que consigo chegar do que penso sobre a "alma" do jardim. Tenho, também consciência que é um mau exemplo e um péssimo argumento, porque sujeito ao flanco fácil: "o que nós queremos é um jardim para viver e não um jardim para morrer".


Fazer um jardim no meio da cidade será sempre um "capricho". Gosto desses caprichos, como gosto dos caprichos de Siza Vieira, como gosto dos caprichos de todos os génios. O que se discute não é se o corte de TODAS as árvores do passeio exterior do Jardim é ou não efeito de um capricho do Sr. Vereador responsável por aquele "espaço verde" (não sei se embirre mais com a palavra "espaço" do que com a associação da palavra "verde" àquela), o que se discute é se aquele Vereador tinha o direito de o fazer. Ora aqui a palavra direito vai além do seu significado "conforme a lei". Para mim ele não tinha direito de o fazer porque aquilo é património que estava antes dele e que lhe deveria perdurar. Porém, para isso, existem as entidades a quem cabe zelar por esse património, a mesma a quem esse mesmo Vereador pediu autorização para fazer o que fez, a mesma que foi desrespeitada quando apesar expressamente de não autorizado a fazer, fez o que pediu para ser feito. Tudo o que se seguiu a esse corte das árvores, a essa primeira "fase" da chamada "requalificação", não é uma questão de legalidade, por muito que seja evidente o esforço da Vereação em reduzir o que se passou a seguir a uma questão de legalidade e, dentro desta, à subespécie "burocracia". Tudo o que se passou a seguir (a fazer fé na notícia do Público que deu origem ao post que comentamos) é para mim muito triste, só isso, triste e sem o romantismo, às vezes triste, daquele jardim, só triste.


Obrigado Ricardo Noronha pela continuação da oportunidade de pensar este assunto.

3 comentários:

paula disse...

Caramba Tiago! leio e releio.

Gi disse...

Olá Tiago.
Já conheço os seus blogues há longo tempo, por influência da Patti. :)
Acho que nunca o comentei.
Veho aqui agradecer a sua visita ao meu blogue e, apesar de não o ter lido ultimammente, achei muito interessante este seu pensamento-resposta ao meu sobrinho, a menos que haja mais comentadores com este nome :)

Tiago Taron disse...

Gi, também conheço o seu Blog - também via Patti - e a última recordação que tenho dele é a sua variação do fado "não venhas tarde" que parece um tratado da sagesse feminina. Gosto muito. Se é seu sobrinho? acho que a melhor pessoa para o confirmar ou desmentir será ele próprio. Obrigado pelo comento.