10.4.13


O NOSSO TEMPO

Advertência: Eu desconfio das palavras. Não é bem das palavras enquanto a modalidade em que mais nos exteriorizamos ao outro, mas das minhas palavras. Não gosto da distância a que ficam do que quero dizer, sobretudo quando escrevo. Mas não tenho outra maneira de procurar dizer o que sinto ser dever, sem ser com elas, procurando que consigam trepar a outra zona de inteligência que a reservada à lógica jurídica que as formatou num inescapável advogadêz[1]. Eu falo advogadêz e isso é tramado, porque é uma língua que sem aviso prévio se sobrepõe à que falávamos antes. Como o corrector ortográfico do meu computador se sobrepôs ao anterior sem que eu tivesse querido e sem que eu agora o consiga tirar, para continuar a escrever como sempre escrevi.[a minha principal objecção ao acordo ortográfico nem sequer é por razões de defesa da língua viva (expressão deliciosa) que é o Porrtuguêis do Brasil (que é o Português mais vivo).  Eu nem sequer tenho objecções ao acordo ortográfico, porque é assim que a coisa funciona, é inevitável. A minha coisa com o novo dicionário que sub-repticiamente se instalou feito um posseiro no coração do meu word é que fica feio o ecran cheio de risquinhos vermelhos e isto para não falar no incómodo do filho da mãe do coisó Plug in ou lá como pulou para aqui, me estar sempre a interromper o raciocínio para inconscientemente pronunciar a palavra como seria dita agora – ainda há pouco isso me aconteceu quando escrevi peremptoriamente (que foi imediatamente substituído por “perentoriamente”). Altera-me as palavras e quando releio as coisas chego a duvidar, mas eu não escrevi isto, isto é um gajo desempenado e contemporaneissimo. (A sério, sem ironia nenhuma. Fico por instantes com a sensação de “não é meu”, eu não tenho esta actualidade).

Escrever sem sentir o atrito das palavras, isso é que eu gostava de saber como se faz para escrever este Manifesto (só o nome irrita, mas é a palavra que designa a sensação do ter de escrever uma coisa sobre este estado de coisas por causa do que não eu sinto que não se diz dele). Escrever sem ficar a olhar de fora para o que se escreve, sem a pôrra da forma. Escrever a ideia sem ruído, directo, sem precisar do assobio do som das palavras ou da geometria dos pensamentos dentro das frases.

Feita a advertência, que deve ter sido lida como se dita no mesmo tom que os conferencistas pedem desculpa por não dominar a língua em que vão falar, com educação e sem – assim espero – nenhuma da arrogância do Senhor de há pouco. Aqui vai

Que é a nossa circunstância que somos nela e com ela. Sim. Que a diferença entre mim e o meu filho mais velho é também do ser do tempo dele e do ser do meu, sim também. À lotaria do lugar onde se nasce acrescenta-se a do tempo em que se nasce e, pela história vivida em cinquenta anos tem-se uma ideia do que acontece aos lugares com o tempo. Atrás deste primeiro plano da noção do tempo (o que experimentamos directamente), sabemos de um tempo anterior e conseguimos mesmo anular o mistério do antes do nascimento (tão grande geometricamente o do depois da morte) através da presença que sentimos em nós dos antepassados. Esse tempo anterior vai-se afunilando até ao fim dessas memória pressentidas dos antepassados. Vem então a palavra ancestrais e o espaço aumenta com ela, provavelmente pelo astral que a palavra tem. Com o aumento desse espaço e o conhecimento que tempos da pequenez temporal dos últimos dois mil anos da humanidade (um século não é uma eternidade, é o tempo que separa muitos dos que estão vivos daqueles que são ou foram os seus avós), é a idade do Manuel de Oliveira, são vinte vidas do Manuel de Oliveira. Se eu disser há vinte vidas do Manuel de Oliveira nasceu Jesus, há qualquer coisa que estremece em mim. Uma sensação de conta errada, da intranquilidade do que não bate certo com o nosso entendimento do tempo. Mas é verdade. Foi há dez Manuel de Oliveiras que se deu a fundação de Portugal, como nos ensinaram que aconteceu. Quando nos falaram disso eramos crianças, mil anos era uma espécie de equivalente a infinitos. Se pensarmos no Holocausto então custa-nos a imaginar que os nossos avós tivessem sido contemporâneos desse momento, que tivessem vivido aquilo em directo. Parece ter sido noutra vida, quase com outra humanidade. Percorremos dois mil anos num instante, se tentarmos colocar essa porção de tempo na escala do tempo dos Deuses. Se tentarmos imaginar qual o tempo – se é que ele existe – do projecto da criação cristã até ao “juízo final”. Temos de concordar que nos parece muito pouco, que estaremos muito longe, que estaremos ainda muito no início. Compreendemos que outros povos tenham pensado tantas vezes na eventualidade do fim colectivo próximo e tenham afeiçoado às suas escalas de tempo as profecias apocalípticas. No nosso tempo a profecia apocalitptica já não vem da bruxaria e está ligada à Ciência e a apresentações em power point feitas por AL GORE. É por essa via que experimentamos a ideia do fim que está em todos os apocalipses. Sabemos que essa é uma das possibilidades, experimentamo-la ainda que inconscientemente, imperfeitamente, nas suposições vagas do que será um fim desses. Assim, a primeira coisa que me parece evidente é que o Nosso Tempo é muito curto para perceber o tempo da “humanidade”. Até porque sabemos das enormes diferenças que a “humanidade” assumiu nestes afinal tão curtos dois mil anos (romanos, árabes, idade média, renascimento, romantismo, belle-époque, revolução francesa (foi há menos de três séculos: a bisavô da minha avô poderia ter estado lá (a minha avó nasceu a 3 de Outubro de 1895, logo separam-me do nascimento dela 118 anos, 1895-118 anos, logo a sua avó poderia bem ter nascido em 1777, a tempo de assistir à gulhotinagem de Maria Antonieta).

O que é que destinguirá o “nosso tempo”, como é que ele será visto de fora, de aqui a dois mil anos? Bom, esse exercício é vizinho do imaginar um fim colectivo. Porém e se o que destingue o Nosso Tempo, se aquilo pelo qual se tornar conhecido nesse futuro em dobro ao que nós já vivemos desde o nascimento de cristo, for qualquer coisa do nosso carácter actual que se equivalha ao buraco do ozono do “apocalipse”? Qual o traço do nosso tempo que se poderia considerar a replicação na humanidade daquilo que está a acontecer na terra?

A minha primeira sensação é que esse traço é a ilusão do homem ser a medida de todas as coisas. O homem individuo, o homem como uma esperança de vida que delimita o que é mais importante no nosso tempo: o tempo de vida de cada um, o tempo da esperança de vida de cada um. Se tentar percorrer essa mesma sensação sem a assustar, consigo imaginar um tempo em que o mais importante não fosse – para quem nesse tempo viveu – o tempo que pessoalmente iria viver mas a sua participação num tempo maior, no tempo da sua espécie, no tempo maior dos Deuses. Chego aqui e paro, começa aqui parte do buraco negro, onde as ideias, mesmo as menos verbalizáveis, as que são só imagem, deixam de existir de se poder formar.

Dita esta salganhada toda, o que me parece é que o nosso tempo é o do princípio de um fim com estrondo de um individualismo que provavelmente se exacerbou com a colocação do homem/individuo no centro de todas as coisas, quando qualquer ser com um mínimo de pudor e – sobretudo – instinto de sobrevivência, não se coloca no centro de todas as coisas. Sei muito pouco de história, mas sei o que intuo do tempo que me foi contado.

O nosso tempo para mim é o do fim do “homem/individuo como medida de todas as coisas”.

Visto o tempo assim, fico impressionado com a facilidade como que nos excluímos do tempo em que estamos, e da nossa enorme cumplicidade filial em relação a ele, apontando o dedo a Sócrates, a Cavaco, à Troika, à Merkle, ao Senhor da Coreia. Somos nós., É o nosso tempo e parece-me mais ou menos evidente que o que está a acontecer na Europa soa a princípio do fim de um tempo muito mais longo do que nós possamos imaginar. Se tivermos de recuar até que a primeira semente deste tempo em que o “homem/individuo” funcionou como definidor da escala da nossa vida pessoal, o nosso tempo de vida, por exemplo, teremos de recuar até outro buraco negro relativamente ao qual só tenho uma muito vaga ideia que é a de que esse tempo seria em muitos aspectos semelhantes àquele que virá. Ao pensar isso penso se o caminho não será agora a marcha atrás do tempo e se não teremos de passar por uma nova idade média e não nos teremos mesmo de preparar para os encantos dela. Porque sabemos que os tem, ainda que esse tempo seja conhecido como “das trevas”.



[1] A primeira vez que ouvi esta expressão “advogadez” foi num julgamento proferida por uma testemunha a quem o Colega do lado tinha acabado de fazer a primeira pergunta. A testemunha era um daqueles administradores das novas empresas público-privadas. Agressivó-snob-sem-berço-mesmo, seria uma descrição, a juntar aos fatos e às gravatas nunca amarrotadas com aquele mesmo ar  do cabelo quando vem do barbeiro, a juntar à arrogância - ainda por cima, em estilo “sei que sou arrogante mas estou-me a conter, por educação” e ao hábito de olhar desnecessariamente atentissimamente para as irís do interlocutor. O Colega tinha o mesmo primeiro nome que eu e era o advogado daquela contemporaneissima companhia público-privada – como eles gostam de dizer “a companhia” – com quem o meu cliente discutia, num caso bem conhecido daquele administrador de quem ouvi essa expressão, quando em respota à primeira pergunta do meu Colega lhe atirou (estes tipos - quando se lembram de uma em que se gostam especialmente de ouvir – atiram mesmo): “Oh Doutor, importa-se de repetir a pergunta sem ser em advogadêz). Fantástico. Fantástica a palavra e fantástica a confusão daquele tipo. Ele tomava o Advogado da “companhia” (que pelos vistos nunca tinha visto) pelo advogado filho da mãe, convencido, fora do baralho que representava “os outros gajos”. Adoptei imediatamente uma atitude compungida, refugiei-me na leitura dos apontamentos anteriores como se estivesse embaraçado que a “minha” testemunha estivesse a ser incomodada pelo Colega. Acho que o Colega não percebeu, porque eu estava ao lado dele, mas até ao final do seu interrogatório percebi deliciado que o Senhor Administrador não desfizera o equívoco de pensar que aquele que lhe fazia perguntas não era eu, que não era op seu advogado em desespero sem saber como lhe haveria de explicar isso, depois daquela entrada de leão do seu administrador sendeiro.

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