19.2.09

EXPOSIÇÃO PÚBLICA




Durante o tempo da exposição alba atroz decidi que vou pintar na Galeria e não no Alentejo.


Pensei que o tempo em que os quadros, já feitos, podem ser vistos, podia ser aproveitado para continuar a fazer uma coisa que por sempre me ter dado imenso prazer, terá sido o que mais contribuiu para que conseguisse pintar todos os dias, onde quer que estivesse.


Refiro-me à circunstância de pintar em público, entre os outros.


À primeira vista pode parecer exibicionismo e terei de aceitar que não seja só à primeira vista, mas também no plano do "bem vistas as coisas".


Aceito, mas não tenho de sentir isso quando me vejo a repetir o gesto de começar a pintar numa mesa de café ou de um bar. O que me faz gostar de pintar em público, o que me faz procurar essa exposição pública, é a interacção, a comunicação, o captar dos momentos que acabam por entrar no que desenho.


Se quiser levar as coisas ao limite, acho que sem estar entre os outros, nunca teria tido matéria para desenhar. Porém, como não desenho à vista, mas "à vista do que aparece no desenho", essa matéria não são nem as conversas deles, nem as suas expressões faciais ou corporais, nem os objectos que possam sugerir: o que passa é o que não está nas palavras, nem no que é imediatamente visível.


Não sei explicar isto de outra maneira, mas captam-se coisas quando desenhamos ao pé dos outros. Coisas como o que estão a pensar, o seu mood, algumas coisas do seu passado. Sei também que isto parece pretensioso (para além de já ter aceite que é exibicionista). Mas o que tem de pretensioso vem, à primeira, da minha ignorância, à segunda, da minha dificuldade em explicar uma coisa que só intuí e que não consigo pensar de forma organizada, quanto mais verbalizá-la.


O que intuí é que quando ofereço um desenho a alguém, esse desenho tem sempre alguma coisa a ver com essa pessoa, sem que eu saiba o quê, acontecendo muitas vezes que é essa pessoa a explicar-me, perante a surpresa, o muito que isso tem a ver com ela (às vezes é um papagaio – e a pessoa em questão desde miúda que tem uma fixação nos papagaios de papel, outra vezes é a legenda do desenho – "o meu pai era caixeiro viajante, escrevi uma vez num desenho que dei a quem era de facto filho de um caixeiro viajante e por aí fora, poderia contar inúmeras situações destas.


Sei, também, que tudo isto deve vir, enquanto fenómeno, do mesmo lugar (ou participar da mesma natureza) de onde vêm as adivinhações (sejam elas pelas cartas, através das folhas de chá, ou dos astros), há sempre qualquer coisa numa frase dita com o tom profético ou pose de mago que aproveita a quem a ouve, como se fosse mesmo "adivinhação" ou poder extra-sensorial. Não acredito que seja isso. A única explicação que dou é que desenhando eu sem qualquer plano prévio e seguindo o que as manchas que as cores vão deixando no papel, é mais fácil desligar-me das palavras e mesmo da intenção de representar o que quer que seja.


Represento assim o que me aparece e o que me aparece é muitas vezes o que eu não consigo captar conscientemente mas que existe e que nos é transmitido através de outros mecanismos que o da observação consciente.


Digo isto apenas para explicar porque é que para mim faz sentido o que para muitas pessoas não faz sentido nenhum: desenhar em público, longe do recolhimento que é suposto acompanhar o "artista" no seu atelier.


Digo isto também para apresentar o tema desse quadro que irei pintando ao longo dos dias da exposição (entre as 16h00 e as 19h00 estarei todos os dias a continuar esse quadro).


O tema serão as ruas, casas, estabelecimentos e pessoas do Bairro Alto. Procurarei fazer uma planta em formato gigante das ruas do Bairro alto e procurarei preencher o seu conteúdo com as formas que me forem surgindo.


No final de cada dia esse quadro será colocado na janela da galeria e quem passar pela rua poderá ver a sua evolução e será tirada uma fotografia para postar aqui e no site de internet da Galeria.


Durante o tempo em que estiver a pintar todos os que quiserem podem vir falar comigo, contar histórias do bairro alto, das pessoas, das ruas, são muito bem-vindos.


O quadro produzido será exposto e far-se-á o encerramento da exposição no dia em que ele estiver completo.

2 comentários:

Ana disse...

O Poeta é um fingidor. Os artistas são exibicionistas, senão exibiriam o que? O pintor não pinta para si próprio nem o escritor escreve só para si.
O acto de pintar em público tem uma grande dose de risco e de aceitação. É um acto de coragem. É uma necessidade de aprovação. Vai ser a tela mais badalada de Lisboa. Depois, o Delfim Guimarães andará por aí a sorrir de contentamento por ter tido um descendente assim.
Beijos
Ana Paula Cabral

João Villalobos disse...

Grande texto!