21.11.09

O REMORSO DO ELOGIO (ou mais um texto piegas)

Ontem li cinco poemas absolutamente únicos. Únicos para mim que resisto a ler poesia e que só consigo ler poemas escritos pelos poucos de que por acaso gostei muito. Tínha quinze anos quando ouvi pela primeira vez o poema de Fernando Pessoa chamado "Aniversário".[ Foi numa das primeiras Bienais de Cerveira. Gondarém é uma aldeia a 2 Km de Cerveira e foi o sítio onde cresci o que se cresce nas férias de Verão, nessas férias de Verão cresci muito. Depois do jantar pegava na biciclete e ia ver o que acontecia à noite num enorme pavilhão inóspito onde a um canto se juntavam pessoas que faziam coisas. Uma delas era um actor brasileiro com um nome que o tempo transformou em Sami Lufi, mas que não deveria ser esse.] Com umas mãos enormes ele leu aquele poema que acabou e acaba assim:

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos, na loiça com mais copos,
O aparador com muitas coisas . doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado .
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... Era ainda aquele em que eu ouvia aquilo! Como era aquele o tempo em que ninguém ainda tinha morrido, mas o poema antecipava-se e conseguia através dele rever o tempo em que estava. Esse "efeito especial" da poesia, de fazer o pensar sentir, senti-o então pela primeira vez e foi o responsável por não conseguir ler a maior parte dos poemas que não o proporcionavam e de ficar adito aos que o tínham (António Maria Lisboa, Jacques Prevert; António Botto; Herberto Helder; Sophia de Mello Breyner, Baudelaire).

Os poemas que li ontem fizeram-me sentir esse efeito meio atordoante das ideias e sensações que se formam, paradoxalmente, só a partir do halo das palavras e não com elas.

Depois, nesse mesmo blogue li um comentário que me fez temer o pior. Aquela torrente de poemas absolutamente fantásticos poderia acabar, a "fonte acaba-se", advertia o comentador. A resposta dada pela autora a esse comentário não me deixou mais tranquilo. O comentário era sobre este poema (de Sylvia Beirute):

LEITURA EXPLÍCITA

{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.

A resposta da autora ao comentário continua o poema "... como diz o presente poema, pouco me importa o futuro. Escrevo a um ritmo natural.".

Mas o pior de tudo veio quando a propósito do que escrevi antes, no que aqui se chama "post" anterior", a autora escreveu que elogios como aquele estragavam. Se estragam não sei, mas receio que interrompam, que contaminem, que alterem por um instante o curso das coisas e por isso os remorsos do elogio. Oxalá não.

3 comentários:

paula disse...

Pieguiçando, parece que tirei o fim-de-semana para me passear por aqui, devagar. Parece, e tirei. Normalmente passo a correr. Espreitando enquanto trabalho.
De repente, por este relato abriu-se-me um frincha no labirinto podre da minha memória e recuei a um tempo em que pessoas se juntavam algures, parece-me que em Matosinhos, e se conversava, e às tantas se recitava poesia pela noite dentro. Poesia sentida, poemas decorados e declamados com alma. Quando o incompreensível se torna nítido.
Não parece, mas eu não me dou muito bem com poesia. Eu tenho que entender e não gosto de nada por inteiro, nenhum poeta lido. Mas ali, naquela sala, a poesia declamada era vida vivida, desejada.
Ultimamente a vida tem-me trazido pedaços esquecidos, apagados, do passado, e aqui pelo seu post, mais uma vez.
É tudo, por hoje, espero eu.

Tiago Taron disse...

em Matosinhos lembro-me de um restaurante, quase de esquina onde no final da semana se ouvia fado da única maneira que o consigo ouvir, ao vivo. foi há mais de vinte anos, não sei se ainda existe.

Marta disse...

gostei do seu texto piegas Tiago.
gostei da reflexão.
e partilho da admiração pela escrita da Sylvia Beirute.
também gostei muito de me ter cruzado com a casa dela.