12.4.10

Ubiquidade


Às vezes, quando uma coisa me incomoda muito,


como um carro do lixo a buzinar às três da manhã,


ou um bebé cuja birra não consegue interromper a refeição dos pais como interrompe a minha,


ou mais um gajo de SEAT IBIZA que vem colado à traseira e que olha para o meu retrovisor à espera que eu o veja e aceite o desafio do autocolante que está no seu vidro de trás e diz "anima o meu dia façamos uma corrida".


Nessas vezes eu agarro-me a uma espécie de ubiquidade ao contrário: "eu podia não estar aqui".


De facto se eu não estivesse naquela rua do camião do lixo,


se eu não tivesse visto que a empregada daquele restaurante tinha um sorriso tão fantástico (de fantasias e não de ficção),

se no troco da portagem da auto-estrada eu não me tivesse trocado todo por causa da música dos PIG PINK alta de mais para a miopia franzida do olhar da caixeira,


se eu não estivesse ali – e era tão fácil não ter estado – nada disso me teria incomodado.

É verdade,


mas também é verdade que não era a mesma coisa,


ou – dito sem o fácil da frase – não podia ser outra coisa.


Tal como não posso estar em dois sítios ao mesmo tempo, também não posso estar em sítio nenhum.


Por muito que durante uns tempos esse exercício me tenha poupado ser demais sem querer,


[quer dizer: existir muito afirmativamente, ocupar espaço em excesso,


como o condutor do carro do lixo,


ou os pais do bebé,


ou o dred futurista do Ibiza,


ou mesmo até a gaja do sorriso,]


Aquilo deixou de resultar, porém!


Porém (II), hoje contive-me nessas três vezes (camião do lixo, restaurante, auto-estrada).


Agora isso faz-me perguntar: se fui capaz de não estar, de flutuar sobre o momento, porque é que não consigo estar ao mesmo tempo onde quer que tu estejas?


7 comentários:

paula disse...

pegando também [já agora que abriu o precedente] numa frase de anúncio – há coisas fantásticas não há?
fantástico este texto, leve, escrito ao ‘correr da pena’, sem olhar para trás, e com tanto dentro.

e depois lá vou eu sonhar com estas coisas...e, helás!, o dom da ubiquidade, aqui, a dormir, e lá, a sonhar:))

Tiago Taron disse...

os seus comentários quase que me convencem a gostar do que escrevo, obrigado Paula, bons sonhos!

Francis disse...

excelente escrita...

Tiago Taron disse...

obrigado Francis e que hoje ganhe o melhor!

Bípede Falante disse...

Vim pelo link do Dono da Loja. Adorei o título do blog. Amor ao quadrado. Jamais ao triângulo :) Nem redondo que dá enjoos. E adorei também o seu post, prosa poética, palavras escritas como, se em vez do teclado, você usasse uma câmera. Voltarei!

Tiago Taron disse...

Bípede Falante: são muito importantes as suas palavras, as palavras às vezes são como aquelas pessoas que estão sempre quando é preciso.

Lucia Alfaya disse...

Texto maravilhoso. Desejei estar onde não estou, talvez estar em cinco lugares ao mesmo tempo. Sempre perto de pessoas queridas e importantes na minha vida. Às vezes desejo simplesmente não estar em lugar algum, ser vazio, sem passado, sem futuro, longe do vácuo do presente.