25.11.10

EGO

Há um ano a Câmara Municipal de Lisboa terminava o abate dos lodãos que circundavam o Jardim do Príncipe Real. Eram árvores e passaram a ser troncos cortados em formato um pouco maior do que os toros que se juntam na casa da lenha. O Jardim ganhava uma luz que feria, como fere a luz para quem esteve muito habituado à penumbra.


Eu passava por lá, no acaso sem acaso que é o do nosso dia-a-dia, o quotidiano em que as coisas estão lá porque de alguma maneira escolhemos, sem o saber, estar com elas. O Jardim do Príncipe Real fazia parte da minha paisagem quotidiana, pertencia àquelas tantas coisas em que só reparamos quando deixam de existir ou de viver (lembro-me a despropósito do que escreveu Fernando Pessoa, na versão Bernardo Soares no Livro do Desassossego, sobre essa parte subterrânea da nossa vida que de que é feito o quotidiano - “O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu — a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim — sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um “o que será dele?”. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.”).



Hoje, 24 de Novembro, a emoção da perda de um pedaço de quotidiano faz um ano. Volto a sentir a última frase do que transcrevi do Livro do Desassossego “E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.” Era disso que se tratava afinal e relendo o que escrevi na altura – que escrevi compulsivamente à procura das palavras que pudessem ser uma fórmula mágica de interrupção do que estava a acontecer - sinto a frustração de não ter encontrado a justa forma para estas: do que se tratava era de defender a “quotidianidade de um jardim não qualquer”, porque era dos poucos que eu não via porque era parte do meu dia-a-dia.



As datas têm o “condão de”, são parentes da varinha das fadas que também se chamavam “de condão”. As datas das efemérides têm o condão de nos retransportar piegamente ao momento que repetem celebrando o que já não existe (o nascimento, a morte, a destruição, a edificação). As datas são uma mistura de razão (a dos dias que têm calendário nome e aritmética) e emoção (dos sentimentos que existiam “no dia em que eu fazia anos e ninguém tinha morrido”). Hoje, dia 24 de Novembro celebro o despertar para a cidade, para essa parte da cidade que é o meu quotidiano e que foi o meu baptismo (e morte) na coisa pública. Uma vez tinha de ser e essa vez aconteceu com o Jardim do Príncipe Real. Dediquei-me à sua defesa com todas as faculdades que tinha e acreditei. Escrevi cartas, conheci pessoas que estavam ali pela mesma razão, lembrei-me que era advogado e que isso poderia servir para qualquer coisa. Ilusão, desilusão. O quotidiano voltou e todos os dias passo pelo jardim que me olha como a casa das noites brancas olhava para o personagem do livro, triste por ter sido pintada por uma cor que a envergonhava. Hoje passei por lá e falei com o Senhor Oliveira que conheci por causa do jardim, do afecto ao jardim. Falámos da efeméride do dia de hoje.

Disse-lhe que fazia também um ano por esta altura que morrera um senhor no banco do jardim, vítima de enfarte cardíaco e que o Senhor Oliveira conseguira reanimar duas vezes. Eu estava lá e nunca mais esquecerei a intensidade e esperança do olhar do Sr. Oliveira, debruçado sobre o peito do homem e a dizer-lhe quando o reanimou: já cá estás amigo, aguenta-te, já cá estás.

Hoje o senhor Oliveira falou-me que desse dia lembrava-se da eternidade que demorou a sirene da ambulância a aproximar-se. Demorou tanto tempo, tenho ainda o eco desse tempo na cabeça. Tanto tempo.

Despedi-me do senhor Oliveira e disse-lhe que iria escrever sobre o dia de hoje, sobre o ano que passou desde o dia em que por causa do jardim nos aproximamos todos. Obrigado Senhor Oliveira, obrigado Jorge, obrigado José Chamusco, obrigado MUITO OBRIGADO Rui Pedro Lérias, obrigado amigos do Príncipe Real, o Jardim pode ter ficado mais triste, sob o pretexto de que se queria mais alegre, mais transparente, mais iluminado, mas eu, que só penso no meu dia-a-dia, beneficiei da vossa convivência e da certeza de que mais uma vez o que contam são as pessoas, apesar dos Egos. Numa das caixas do jardim está numa palavra assinada a obra que foi feita, conforme se vê na fotografia infra. É humano, é compreensível e como dizia a Margerite Yourcenar: não faz mal, o tempo é um grande escultor e se o tempo quiser o jardim há-de voltar.


9 comentários:

Bípede Falante disse...

Os homens passarão e as árvores estarão aqui para receber os novos pássaros, com ou sem a nossa ajuda, eu espero, espero mesmo :)
beijo

maria de freitas disse...

muito bem escrito e bem sentido. O desamor a um jardim que era acolhedor e aconchegante onde a visibilidade era difícil e misterosa de um lado para o outro...Não era o meu jardim o meu é o da Estrela e o da Parada que desgraçadamente já lhes aconteceu o mesmo... uma poda miserenta a favor ... do quê?
Maria df

Rosa disse...

Os Jardins, este em particular , têm o tal "condão" de fazer despertar emoções que, às vezes, nem desconfiávamos que existiam.
Assistir ao vil ataque de que este jardim foi vítima foi uma lição que devemos levar para o resto das nossas vidas. Ter encontrado tanta gente que, como nós,
se emociona com estas coisas foi, sem dúvida, a parte positiva de tudo o que aconteceu.

Paulo Ferrero disse...

Caro Tiago, a frase de Yourcenar, que cita e que eu desconhecia, diz tudo, ou quase, que o resto vai-se esbatendo no ping-pong entre entidades, pareceres, diz que disse, etc. A ver se não acontece mais nenhuma destas!!

Jorge Pinto disse...

Belo e comovente texto Tiago.

'...e que foi o meu baptismo (e morte) na coisa pública.'
Tiago, se me permite, vou alterar esta frase para '...e que foi o meu baptismo e iniciação na coisa pública.'
Pessoas como o Tiago é que fazem falta na 'coisa pública' e lembremo-nos que, como diziam os 'soixant huitards' ocupa-te da política antes que ela se ocupe de ti.

hesseherre disse...

As podas das árvores são como os cortadores de cabelos (barbeiros)
que se estão pouco a importar com o que estão a fazer....podam cegamente, imbecil e alopradamente, parecem sentir um prazer lúbrico de mutilar as plantas...

ZP disse...

E tudo o vento levou.
A emoção deu lugar à razão e vice versa.
Quando queremos mesmo podemos, neste caso palavras vãs mas não ocas, pouco mais fizeram que mos trar alguma indignação.
Entre o discurso e a prosa, nestas situações o discurso é mais eficaz porque não se reduz a um mero exercício de estilo com tendência a cair no narcisismo.
Sorry por ser tão mordaz mas .... é merecido.
Boa sorte

ZP disse...

Fiquemo-nos pelas intenções.
E tudo o vento levou.
Se queremos fazer frente ao poder local, há que adoptar formas de luta mais eficaes e deixarmo-nos de romantismos, pondo de vez a emoção de lado e adoptando uma postura mais prafissional e eficaz.

Tiago Taron disse...

Caro ZP: a minha profissão infelizmente é um tédio e a minha eficácia há muito que aprendi a não confiar nela. Na véspera da manifestação da "geração à rasca" registo a sua censura e o seu julgamento, sinais dos tempos, dos Homens da Luta ao revolucionários sem outro ideal que a cinematografia da violência revolucionária. Enfim, odeio-me profissional e ineficaz sei que sou, ainda assim tento ser quem vou percebendo que sou, é só isso caro ZP e foi só isso a minha questão com o jardim do Príncipe Real (prolixamente documentada em posts anteriores).