28.3.21

O Caso da Princesa Arménia, peregrina no Século XI (Artigo publicado na Edição de 26/03/2021 do Jornal "O Caminhense")


Igreja de Vaspurakan (c. 921, mandada edificar por Gagik I, Arquitecto: Bispo Manuel, Ilha de Aghtamar, actual Turquia, antiga Arménia)


Mosteiro de São Salvador de Castro de Avelãs, data de construão desconhecida, lugar onde se teria dado o caso da Princesa Arménia e do Cavaleiro Mendo Alam

A protecção da condição de peregrino foi (e procura continuar a ser) uma das razões do actual crescente sucesso dos “Caminhos de Santiago”. Talvez por isso uma das histórias mais antigas sobre peregrinos seja justamente a da flagrante violação desse dever de protecção que desde os tempos mais remotos da Idade Média se procura assegurar

Neste ano Santo, de Jacobeo provavelmente não assistiremos ao regresso em massa dos peregrinos que a partir desta altura começávamos a ver a calcorrear troços do caminho de Santiago ou a aguardar a próxima travessia do Ferry. Entretanto o Papa Francisco, decidiu prorrogar por mais um ano “os benefícios rituais concedidos aos fieis que visitem a Basílica Catedral Metropolitana de Santiago durante o ano em que o dia da celebração  memória litúrgica do Santo - 25 de Julho - se celebra a um Domingo, como acontece neste ano de 2021.

Na sua mensagem, o Papa Francisco convida ao caminho, sugerindo que nos desliguemos das coisas que nos pesam, tendo presente que na vida não caminhamos sozinhos e que devemos confiar nos nossos companheiros sem suspeitas e desconfianças.

O código de solidariedade que acompanha a peregrinação a Santiago encontra-se em muitos dos seus sinais, práticas e costumes - a título de exemplo a antiga prática de oferecer ao peregrino da comida que ele conseguisse retirar com a sua vieira, o dever de hospitalidade.

A protecção da condição de peregrino foi (e procura continuar a ser) uma das razões do actual crescente sucesso dos “Caminhos de Santiago”. Talvez por isso uma das histórias mais antigas sobre peregrinos seja justamente a da flagrante violação desse dever de protecção que desde os tempos mais remotos da Idade Média se procura assegurar. Refiro-me à história do “Conde Preso”, contando em romanças de tradição oral e que Almeida Garret, no seu Romanceiro, transcreveu da seguinte forma:

“Preso vai o conde, preso,
preso vai a bom recado;
Não vai preso por ladrão,
Nem por homem ter matado,
Mas por violar a donzela
Que vinha de San Tiago:
Não bastou dormir com ela,
Senão dá-la ao seu criado!
Acometeu-a na serra,
Mui longe do povoado:
Por morta ali a deixara
Sem mais dó, sem mais cuidado
Chorou três dias, três noites,
E mais teria chorado,
Senão que Deus sempre acode
A amparar o desgraçado.
Passou por ali um velho,
Um pobre velho soldado,
Suas barbas brancas de neve,
Em sua espada abordoado;
Vieiras traz na esclavina,
O chapéu delas cercado;
Chegou-se à pobre romeira
Com muito amor, muito agrado:
«Não chores mais, filha minha,
Filha, demais tens chorado;
Que esse vilão cavaleiro
Preso vai a bom recado.»
Levou consigo a donzela
O bom velho do soldado;
Vão à presença del-rei,
Onde o conde era levado:
– «Eu te requeiro, bom rei,
Pelo Apóstolo sagrado,
Que nesta sua romeira
O foro seja guardado.
Da lei divina é casar-se,
Da humana ser degolado:
Que não valem fidalguias
Onde Deus é o agravado.
Disse el-rei aos do conselho
Com semblante carregado:
– «Sem mais detença, este feito
Quero já desembargado.»
– «Visto está o feito, visto,
Julgado está, bem julgado:
Ou há-de casar com ela,
Ou se não... ser degolado.»
– «Pois que me praz» disse o rei:
O algoz que seja chamado:
Ou já casar, co a romeira
Ou aqui ser degolado.»
– «Venham algoz e cutelo.
Respondeu o acusado:
Mas antes morrer mil vezes
Que viver envergonhado»
Agora ouvireis o velho,
O bom velho do soldado:
– «Fazeis, bom rei, má justiça,
Mau feito tendes julgado:
Primeiro casar com ela,
E depois ser degolado.
Lava-se a honra com sangue,
Mas não se lava o pecado»
Palavras não eram ditas,
A espada tinha arrojado,
Despe insígnias de romeiro,
Despe as armas de soldado,
Nos trajos de um santo bispo
Aparece transformado;
Sua mitra de pedras finas,
De oiro puro o seu cajado:
Tomou a mão da romeira,
A mão do conde há tomado,
Por palavras de presente
Ali os tem desposado.
Choravam todos que o viam,
Chorava mais o culpado;
Chorando, pedia a morte
Por não ficar desonrado.
O santo bispo o absolvia
Contrito de seu pecado:
Dali o levam por morto
Que nem o algoz foi chamado,
Justiça de Deus foi nele,
Antes de uma hora é finado!
Mas acudiu àquela alma
O Apóstolo sagrado,
Que outro não era o romeiro,
O bispo nem o soldado.

No primeiro livro de linhagens de Portugal que se conhece, o chamado Livro Velho das Linhagens, que se supõe escrito no Século XIII, aparece uma referência a um “afilhamento forçado”, cometido por um Cavaleiro/Abade, Conde Mendo Alam (ou Alanis ou Alam), que no Mosteiro de São Salvador de Castro de Avelãs, teria hospedado uma princesa Arménia que iria de peregrinação a Santiago de Compostela.

Lê-se naquele livro, na parte dedicada à linhagem dos Braganções (uma das cinco principais linhagens existentes no Século anterior à fundação do reino) que “D. Mendo Alão de Bragança filhou por força uma filha do Rey da Arménia que hia em romaria a Santiago e fez nela D. Fernão Mendes, o Velho e D. Ouriana Mendes”. Noutro apontamento de linhagens, conhecido por Fragmento , encontra-se notícia do mesmo acontecimento: “D. Alam foi clérigo e filho-dalgo (fidalgo) , e filhou a filha d’El Rey da Arménia, quando ia em oração a Santiago e foi sa hospedada em São Salvador de Castro de Avelãs.” Já no Nobiliário do Conde de D. Pedro de Barcelos (Século XIV), a parte dedicada à linhagem dos Braganções (Título 38) começa justamente com o referido Mendo Alão, que dá como casado com Dona Francisca (sem mais), ambos pais de Fernão Mendes de Bragança, o Velho e de Ourana Mendes de Bragança. De referir - a talhe de foice - que neste mesmo Título 38 do Nobiliário do Conde de Barcelos surge a referência a Álvaro Pires de Castro, filho de Aldonça Lourenço (Valadares) e de Pedro de Castro (o da Guerra), ou seja: Álvaro Pires de Castro, o único irmão inteiro de Inês de Castro - e 1º Conde de Caminha - é referido naquele nobiliário, como sendo descendente directo daquele mesmo Mendo Alão e de sua mulher, o que faz de Inês de Castro, provável descendente directa da princesa Arménia, a ser verdade a história/lenda do “rapto da princesa da Arménia”.

Diversos estudos ou comentários foram-se sucedendo quanto à probabilidade de ser verdadeiro esse episódio “fundador” de uma linhagem que o tempo acabaria por revelar impar na nossa História (se percorrermos os vários descendentes desse episódio encontramos: Santo António de Lisboa, Inês de Castro, D. Lara de Castro - que casou com o Infante D. Duarte, irmão de D. João IV e que faleceu encarcerado na Torre de Milão - Duque de Caminha (1º e 2º Duques de Caminha), Fernando Pessoa…

Um desses estudos foi feito na Argentina por um genealogista e jornalista do jornal “La Nacion” de Buenos Aires, Narciso Binayan Carmona. O estudo, publicado em 1978, intitula-se “Uma princesa Arménia en Compostela en el siglo XI. Su Genealogia”.

A partir desse e de outros estudos anteriores, é proposta a identificação da princesa Arménia como sendo a Princesa Joana Ardruzni, que seria filha do Rei Senekerin do Reino de Vaspurakan , neta de Gagik I (também nomeado por Cacício I) e que terá sido um dos primeiros reinos cristãos. Aquele reino tinha a sua sede e paláciona ilha do Lago Van chamada Aghtamar. Aí mandou Cagik I edificar uma das mais notáveis igrejas da história do cristianismo: a igreja de Aghtamar, na ilha com o mesmo nome. A essa mesma família real Ardruzni (ou Ardzuni, ou Arzerúni, como também é designada), pertence um dos primeiros historiadores Arménios, Tomás Ardzuni e que no Século X deixou escrita a “História da Casa Arzerúnio”, traduzida para Francês no Século XIX por Marie-Félicité Brosset.

Ora, o curioso é que o próprio mosteiro de Castro de Avelãs acaba por ser mais semelhante (na parte que resta da sua construção primitiva) com a igreja de Aghtamar (cuja data de construção se situa entre 915 a 921) do que com qualquer outra igreja em Portugal, sendo aliás um dos únicos exemplares em Portugal da chamada arquitectura Romano-Mudejar. Ao contrário do que acontece com a Igreja de Aghtamar ainda hoje ignoramos a data em que terá sido edificado a Igreja de Castro de Avelãs, pese embora serem conhecidas referências à sua existência enquanto lugar de acolhimento de peregrinos, pelo menos desde o Século XII.

A ter ocorrido o episódio narrado no Livro Velho, no Fragmento e nas Romanças de tradição oral, o mesmo terá acontecido imediatamente após o fim do reino da Vaspurância, o que ocorreu a 1021, com a sua passagem para o Império Bizantino, na sequência de acordo de paz feito pelo seu último Rei, Serekin, pai da Princesa Arménia.

Considerando a devoção patente na Igreja de Aghtamar, a circunstância daquela dinastia ser a única cristã das várias casas reais arménias, faz sentido não só a ideia da peregrinação a Santiago de Compostela, como não deixa aliás de ser intrigante que o arquitecto da Igreja de Aghtamar surja identificado (no excelente site dedicado
àquela igreja – e vale mesmo a pena ver as imagens do seu interior) como sendo o “Monge, Bispo Manuel” (sem, porém, se esclarecer qual a sua origem, bem como a de um nome próprio como “Manuel” no reino de Vaspurakan).

A ter ocorrido essa peregrinação faz também sentido a hospedagem no Convento de Castro de Avelãs, assim como a sua ligação ao referido Conde Francês, que como outros cavaleiros integravam a Ordem Beneditina, vocacionada desde a sua fundação a servir os pobres, os peregrinos
O lugar de Castro de Avelãs estava no mapa dos principais itinerários romanos que ligavam Roma, França, Portugal e Espanha, constituindo paragem obrigatória da via XVII do Itinerário de Antonino nas peregrinações a Santiago de Compostela.

Mil anos depois a dúvida sobre este episódio subsiste. Entretanto, nos principais sites de genealogia, a princesa Ardzuni é confirmada como mulher de Mendo Alão e mãe de Fernão Mendes de Bragança, o Velho, e Ourana Mendes de Bragança. Se foi “filhada à força”, como diz o Livro Velho, poderá ser a outra parte do mistério que jamais se poderá desvendar, quanto à origem arménia, em breve o ADN o poderá demonstrar, já que é hoje possível saber onde estão os supostos descendentes desse mesmo episódio.

Uma coisa é certa: gravita em torno das mulheres que antecederam e sucederam àquela princesa, uma aura de mistério, beleza e fado que não deixa de surpreender.

Desde logo a própria origem do nome da Ilha Aghtamar. Segundo a lenda, o lago deveria o seu nome uma história de amor entre um Nobre Arménio e uma princesa, de nome Tâmara, que vivia na Ilha do Lago de Van (então Arménia, hoje Turquia). Todas as noites, em segredo, a princesa acendia uma fogueira numa das escarpas da ilha. O seu amado mergulhava então no lago e guiado por aquela luz, nadava o nobre Arménio ao encontro da Princesa Tâmara, que o aguardava, junto ao fogo. Numa noite, o Rei terá sido informado do segredo. Aguardou que a princesa fosse ao local onde acendia a sua fogueira, esperou que ela repetisse o fogo, aguardou que o mesmo pudesse ser visto do outro lado da margem da ilha, aguardou um pouco mais e dirigiu-se então à fogueira, apagando-a. Segundo a lenda uma tempestade abateu-se então sobre o lago negro de Van. Segundo a mesma lenda, desde então que nesse lago se ouve o grito do amante da princesa arménia Tâmara: “Ak Tâmar!”, “Ak Tâmar!” (aqui Tâmara, aqui Tâmara!), perdido no meio da tempestade, sem a luz da fogueira que lhe servia de orientação (em homenagem a esta história os Arménios fizeram uma estátua de uma mulher que acena com um braço erguido para o lago, estátua que se encontra no Lago de Sevan).

Seria a Princesa Tâmara do lago a que deu nome (Aktamar ou, actualmente, Aghtamar) avó da Princesa Joana Ardzuni?

Seria a Princesa Joana Ardzuni: 4ª avó de Santo António de Pádua (nascido em Lisboa em 1190, falecido em Pádua em 1231); 7ª avó da Castelhana Maria de Molina, rainha consorte, mulher de Sancho IV de Leão e Castela e Rainha Regente nos reinados de Fernando IV e do seu neto Afonso XI, ambos de Leão e Castela?; 8ª avó da Portuguesa Aldonça Lourenço Valadares por quem se enamorou, o Galego (de Monforte de Lemos) D. Pedro Fernandes de Castro, o da Guerra, bisneto de Sancho IV de Castela e com quem teve pelo menos dois filhos: Álvaro Pires de Castro (1º Conde de Arraiolos e de Viana da Foz do Lima, onde D. Fernando fez incluir o Condado de Caminha e 1º Condestável de Portugal)?; 9ª avó dos irmãos Inês de Castro e Álvaro Pires de Castro?; 10ª Avó de Beatriz Infanta de Portugal, filha de D. Pedro I e D. Inês de Castro?; 11ª Avó de Isabel de Portugal, dada como filha de Beatriz Infanta de Portugal - e de seu meio irmão, o futuro Rei D. Fernando - que casou com Afonso, Duque de Noroña e Gijon, avós do primeiro Marquês de Vila Real (casa do futuro Ducado de Caminha)?;  16ª Avó de Beatriz de Meneses, que casou com Pedro de Médicis   17ª Avó de Maria de Lara e Meneses, curiosamente denominada por “A Peregrina”, irmã do 1º Duque de Caminha e que em segredo casou com o Infante D. Duarte, irmão de D. João IV, o mesmo que mandou executar o seu sobrinho D. Miguel Luís de Noronha,e que viu o seu irmão partir de Vila Viçosa, por não se entender com a sua mulher, D. Luíza de Guzman, que lhe censurava o indiscreto interesse por uma das suas aias, provavelmente aquela com quem o mesmo Infante D. Duarte viria a casar em Vienna, no ano de 1635, antes de ser preso, tendo falecido em Milão, no ano de 1649?; Toda esta descendência consta hoje acessível e comprovável nos sítios de genealogia. Outras certamente poderão estabelecer-se ou revelar-se. Não deixa, porém, de ser notável como a partir de um episódio novelesco encontramos na vida dos seus descendentes, uma espécie de marca de tragédia amorosa que parece fazer parte do ADN dos Braganções e seus sucessores.
Como diz um amigo alentejano (numa variante do dito Italiano com o mesmo sentido): se não é verdade é bem caçado (si non e vero e ben trovato).

Gondarém, 16 de Março de 2021

14.2.21

Ganhei o dourado do trigo

 

 

O instante de onde vem o para sempre da esperança, o instante da visão da paz, da sua presença, esse instante aconteceu ontem em directo, tão desprevenidamente como desprevenida e directamente nos entraram as imagens da invasão do Capitólio.

Aquele instante súbito. Com a luminosidade única da côr mais maravilhosa, mais próxima do maravilhoso dourado dos campos de trigo do Princepezinho, apareceu como uma Garça dessa Graça que é estarmos vivos, com o mesmo olhar de pássaro, com a leveza da inocência que só de si é a mais bela das belezas.

E éramos um ali, o nosso melhor ali, a vir-nos buscar. Lembrei-me da personificação da esperança: as novas gerações, a renovação, o conforto da probabilidade de que essa beleza, enquanto existir, prevalecerá.

Essa beleza não é daquele pássaro cortante de intensidade majestática no olhar mais próximo dessa certeza que até hoje vi.
Essa beleza vem da nossa própria circunstância comum: de experimentarmos a verdadeira união, ou a força dela, ainda que saibamos que essa mesma vertigem (a do sentimento de união, de comunhão), possa gerar a perda da possibilidade da ilusão do eu, perante a força dos imensos outros de que no fundo são feitos todos os tempos em que essa multidão de imensos outros, toma conta de nós, transformando-nos involuntariamente em soldados de um exército sem vontades próprias. Enquanto pensava isto, entre estúpidas lágrimas que já desistira de procurar moderar, comecei a ouvir naquele olhar e naquelas mãos a frase do refrão da mais enigmática canção do Nobel Dylan: The answer is blowin' in the wind.

Seria essa a legenda daquela imagem que para sempre ficará gravada: Amanda Gorman, a quem o presidente eleito ouviu um dia ler um poema (no mês de Dezembro passado). Quis conhecê-la e pediu-lhe para escrever um poema para o dia da inauguração. Ela escreveu. Durante a sua preparação leu. Leu os discursos de todos os grandes da História do Capitólio. Depois aconteceu o que aconteceu no dia 6, naquele lugar. Ela viu, ouviu e escreveu aquilo que Disse, como ninguém o dirá assim (provavelmente nem ela própria), mais nenhuma vez.

Que momento! Entretanto o dia amanheceu e acordei no mesmo mundo que ontem, ainda que com essa certeza: a de que vale a pena e é disso que se alimenta o sempre da esperança. Desses vislumbres da beleza pura.

Quando a raposa pede ao Principezinho para a cativar, diz-lhe:

“se tu me cativas, a minha vida ficará cheia de sol. Reonhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus chamar-me-ão para fora da toca, como se fossem uma música. E depois, olha! Vês lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa nenhuma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, far-me-à lembrar de ti. E eu passarei a amar o barulho do vento no trigo…”

O diálogo termina com a despedida:

“– Ai! – suspirou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
– A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para te cativar!
– Pois pedi – disse a raposa.
– Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
– Pois vou – disse a raposa.
– Então não ganhaste nada com isso!
– Ai ganhei, sim, senhor! – disse a raposa. – Ganhei a cor do trigo."


O HOMO STUPIDUS E NÓS, OS SAPIENS





Nos últimos vinte anos têm-se acumulado notícias de descobertas surpreendentes sobre o Homem de Neanderthal a quem nós (Homo Sapiens Sapiens) – há cerca de trinta mil anos teríamos sucedido no território Europeu - que fora a sua casa durante trezentos mil anos - e a quem chamámos estúpido.

1.    O MENINO DE LAPEDO

A primeira notícia foi a da descoberta de um fóssil de esqueleto de um menino (que ficou conhecido como o “menino de Lapedo”) e que projectou o lugar do “Vale de Lapedo” para o mundo da Arqueologia e da História da humanidade.

No Abrigo designado por “Lagar o Velho”, nesse vale em Leiria, foi encontrada a sepultura de uma criança de cinco anos que se revelou o mais perfeito exemplo de híbrido Neanderthal e Sapiens. A criança apresentava-se como um mosaico misto de Neadenthal e Sapiens. Efectuados os testes de datação, as ossadas foram situadas cerca de 22.500 a.c.. (ou seja, supostamente milhares de anos depois da suposta desaparição do Homem de neanderthal da Peníncula Ibérica).

 Ter-se-à encontrado nas suas características mistas de ora Neaderthal, ora Sapiens, evidência do que muitos já suspeitavam: a existência de cruzamentos, bem sucedidos, entre duas “populações”, supostamente pertencentes a duas espécies distintas do mesmo género (hominídeos) que a dada altura – e ainda que por pouco tempo no caso da Europa - coincidiram no mesmo espaço, no final da era do gelo (cerca de 30.000 a.c. ou 32.000 BF (before present), acasalando e gerando o que se poderiam chamar de quimeras (caso se aceite estarmos perante espécies diferentes).

De imediato choveram críticas ao que parecia o regresso da heresia à palentologia. O Homem Moderno, descendente directo do Sapiens, supostamente superior ao Homem de Neanderthal e cuja chegada à Europa teria determinado a extinção deste, tinha afinal não só convivido com o seu antecessor Neanderthal, como chegara mesmo a gerar o que seria uma quimera (cruzamento entre duas espécies diferentes). Ora, essa foi uma das primeiras e mais fortes críticas à interpretação da ossada do menino de Lapedo como constituindo o primeiro hominídeo  híbrido de Sapiens e Neanderthal, que sendo duas espécies distintas não poderiam (ou não deveriam poder) gerar entre si.

De facto a possibilidade de procriação entre Neandertais e Sapiens apenas se demonstrou ter ocorrido (e após a análise de vários genomas sequenciados) no acasalamento entre homem Sapiens e mulher Neanderthal, já que o cromossoma “Y”, responsável pela determinação do sexo masculino, não tem no Homem Moderno quaisquer vestígios de Neandarthalidade, do que se concluíu que só os Homens Sapiens e as mulheres Neanderthais (e não as mulheres Sapiens e os Homens Neanderthais) contribuíram para a miscigenação  entre as duas espécies ou raças (conforme a opção que seja tomada sobre a questão). Esta “assimetria” na possibilidade de gestação (apenas possível nos cruzamentos Homem Sapiens/Mulher Neanderthal), terá certamente contribuído para e progressivo desaparecimento da população Neanderthal, que sendo já então pouco numerosa e geneticamente enfraquecida por longos períodos de enorme consanguinidade, poderá ter diminuído drasticamente a sua capacidade reprodutiva, o que não acontecia com a população mais numerosa dos Sapiens, em crescimento demográfico contínuo e com muito maior diversidade genética.

Um outro aspecto que poderá ter colaborado quer nos cruzamentos mistos com geração, quer na extinção do Homem de Neanderthal, terá sido a possibilidade (real) dos Sapiens só terem adquirido imunidade aos vírus que encontraram no seu novo território (Europa) por via dessa miscenização, transmitindo para os seus filhos a imunidade genética que possuíam os seus avôs maternos Neanderthais, podendo também ter acontecido que os Neanderthais, por sua vez, não tivessem adquirido essa mesma imunidade, relativamente aos novos vírus de que os Sapiens pudessem ser portadores.

2.    A REVELAÇÃO DO ADN NEANDERTHAL

A segunda notícia foi a sequenciação de 60% do ADN nuclear de uma mulher Neanderthal - uma mulher que viveu na Sibéria (nos Montes Altai, Rússia) há 122 mil anos.

Seis anos após ter sido sequenciado pela primeira vez o genoma humano, o que ocorreu em 2004, conseguimos, em 2010, chegar pela via genética a dados absolutamente surpreendentes sobre um dos grupos de hominídeos mais próximos de nós.

Com graus de variação relevantes (entre uma média inferior a 1% nos africanos e de 4%, nos Europeus, assim como nas populações da Ásia), a sequenciação do genoma do Neanderthal e a sua comparação com o do Homem Moderno demonstrou que não só tinham existido casamentos mistos bem sucedidos na descendência, como as consequências desse (as)salto genético permanecem “vivas” no nosso fundo genético.

Poderá assim a Península Ibérica (e para algins Paleontólogos: Portugal) ter sido um dos últimos redutos do Homem de Neanderthal. É este o entendimento de João Zilhão, Investigador e Professor da Universidade de Barcelona.  Como se a história se repetisse e a Península Ibérica (e nesta provavelmente a sua parte Noroeste), tivesse sido para os Neanderthais ante os Sapiens o que foi para Galaicos e Lusitanos e outros povos que habitaram o noroeste peninsular, face aos Romanos: O último lugar de refúgio perante o “invasor”.

Por outro lado a baixa densidade populacional dos Neanderthais - que distribuídos pelo continente, nos últimos cem mil anos, não seriam mais do que 70.000 (J.P. Bocquet Appel & A. Degioanni Neanderthal Demographie estimates” Current Anthropology, citado por Silvana Condemi e François Savatier; Néanderthal, mon frére, Champ Sciences – 2019 , pp. 124
), o que considerando a totalidade do território ocupado e o número médio de cada clã (cerca de 35 individuos), daria a cada clã uma área de cerca de 5.000 Km2, correspondendo a um quadrado de 70 km por 70 Km - explicaria uma diminuição dos contactos entre clãs diferentes, o que poderá ter estado na origem no enfraquecimento genético e na progressiva diminuição dessa população.

As instáveis condições climatéricas, do último período inter-glaciar (57-000 a 29.000 a.c.) poderão ter contribuído para o efectivo isolamento dos diversos clãs de Neanderthais o que determinou o progressivo empobrecimento genético decorrente de uma inevitável consanguinidade extrema, que poderá também explicar o que muitos apontam como um outro facto concorrente da sua extinção: a diminuição da feritildade Neanderthal versus a superioridade demográfica e maior robustez genética dos Sapiens..

Finalmente - e a título de mera curiosidade - uma das razões adiantadas por alguns paleontólogos para a “derrota” do Neanderthal pelos Sapiens, terá sido a aliança destes com os lobos.

 Enquanto o Neanderthal caçava em grupo, procurando sobretudo grandes presas que permitissem a constituição de reservas para futuro, os Sapiens passaram caçar com cão, triplicando, segundo foi estudado, a sua produtividade venatória, o que permitia aquela acumulação, necessária à travessia dos períodos de carência de alimentos.

3.    CAPACIDADE DE EXPRESSÃO SIMBÓLICA DO NEANDERTHAL

A terceira das notícias surpreendentes resultou da atribuição aos Neanderthais da autoria de uma das mais notáveis colecções de Arte Rupestre no mundo (notável no sentido da qualidade da própria expressão dos motivos desenhados, em que sobressaem a capacidade figurativa e expressiva de animais como o leão ou o cavalo).

Depois de em 1994 três arqueólogos franceses terem descoberto em Valon Pont-Arc, uma gruta contendo diversos desenhos e pinturas do paleolítico, diversos testes de datação foram sendo efectuados ao longo dos tempos, tendo os mais recentes concluído que as primeiras pinturas rupestres datariam do paleolítico superior, cerca de 37.000 a 33.500 anos. A datação obtida coincide com um período em que o Homo Sapiens ainda não tinha chegado à Europa, razão pela qual se atribuiu a autoria daquele impressionante conjunto pictórico aos Neanderthais.

Já em 2010, perto de Múrcia, na localidade conhecida por “Cueva de los Aviones”, encontraram-se diversas conchas perfuradas e que haviam sido pintadas com  pigmentos minerais complexos (laranja, encarnado e preto), cuja datação remonta a 115.000 a.c., altura em que também os únicos hominídeos que aqui viviam (Europa, Península Ibérica) eram também os Neanderthais.

Curiosamente, junto ao pescoço do Menino de Lapedo foi encontrada uma concha tingida de ocre, que se supõe ter feito parte de um colar. A concha pintada do menino de Lapedo e as conchas perfuradas e pintadas na Cueva dos Aviones (Múrcia, Espanha), bem que se poderia ter transformado no símbolo da perturbante descoberta: O Neanderthal, muito antes do próprio Sapiens - cerca de pelo menos 40.000 anos, considerando a datação dos pigmentos das conchas da Cueva de los Aviones – 115.000  anos e os primeiros artefactos equivalentes do Sapiens em África - já  oproduzia graficamente o que consideramos como privativo e distintivo do humano: o símbolo.

Afinal, Neanderthal e Sapiens foram não só contemporâneos, como ambos detinham  as mesmas capacidades cognitivas e de expressão. Aliás a existir uma ordenação de mais para menos, provavelmente seríamos levados a colocar as capacidades intelectuais do Homem Stupidus - como então foi baptizado pelo zoólogo Ernst Haecke o hominídeo encontrado em Neanderthal.


4.    O GENE NEANDERTHAL E A ACTUAL PANDEMIA

A quarta notícia - e esta não poderia ser mais contemporânea deste tempo que vivemos -  foi a constatação cientifica da existência de uma relação entre os quadros mais severos de COVID e a presença de um gene Neanderthal nesses pacientes (o último destes estudos foi publicado na Revista Nature em 30 de Setembro de 2020 e elenca os estudos anteriores que concluem no mesmo sentido: o risco genético para a existência de quadros severos dos infetados pelo SARS-CoV2 “Corona Vírus Disease 2019” – Covid19 –  como risco a acrescer aos factor de risco dois principais: idade e estado geral de saúde - está associado à presença de gene “Neaderthal”, no ADN de algumas populações que o herdaram do cruzamento destes com os Sapiens ocorrido há cerca de 50.000 anos (segundo a data apontada no estudo referido), quanto aos Europeus.

Estas quatro noticias, todas elas dos últimos dez anos, iluminaram com foco de estrela principal um antepassado que vínhamos desvalorizando. Se não chegámos ao ponto de o baptizar como Homo Stupidus, como pretendia o Zoólogo, não deixámos, de reservar para nós a designação de Homo Sapiens, às vezes “sapiens, sapiens” (inteligente) para o primeiro Homo Sapiens encontrado em África há cerca de 315.000.

5.    E CAMINHA COM ISSO?

A concentração na Península Ibérica de grande parte das manifestações de Arte Rupestre, durante a parte final da idade do gelo, conjugada com a circunstância de ter sido a Peninsula Ibérica e nesta Portugal,  para muitos paleontólogos, um dos últimos redutos do Homem de Neanderthal; com a evidência de ter existido cruzamento de espécies na Europa, entre Sapiens e Neanderthal algures nos últimos 50.000 a.c., assim como o sucessivo “abaixamento” temporal do momento “crepuscular” do Homem de Neanderthal, tornam os vestígios arqueológicos do Paleolítico, ou pré-históricos, existentes no concelho de Caminha, uma certeza de um promissor futuro arqueológico para o concelho.

Referimo-nos não só as jazidas da chamada industrial lítica na foz do Minho, que foram objecto de atenção especial de vários arqueólogos (M. Sarmento; E. Jalhay; Serpa Pinto; A. Viana; Baptista Lopes; J. Meireles) e que desde o final do Século XIX vêm alertando para a importância dos vestígios de utensílios de corte ou perfuração, característicos da idade da pedra e utilizados pelas populações de Neanderthais, como às gravuras de arte rupestre que foram sendo encontradas no Monte de Góios, as chamadas Lage das Fogaças e Lage das Carvalheiras e as restantes gravuras que foram sendo descobertas recentemente, por ocasião da construção do troço Caminha/Gondarém, em cujos trabalhos preparatórios foi efectuado uma prospecção e levantamento que pode ser consultado on line aqui:

https://www.museuarqueologicodocarmo.pt/publicacoes/outras_publicacoes/III_congresso_actas/artigos/Art4.6_IIICAAP.pdf (Publicação em pdf da Associação dos Arqueólogos Portugueses; Arqueologia em Portugal – Estado da Questão; pp. 571 a 598), estudo onde se enumeram os anteriores trabalhos sobre aquele santuário rupestre, inventariando-se com imagens e descrições técnicas, cada uma das gravuras actualmente existentes e que aguardam a classificação como monumento nacional (anúncio 12/2019, publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 10, de 15 de janeiro de 2019, rectificada Declaração de Rectificação 744/2019 de 8 de Outubro).

Para quem estiver interessado, a relação da arte rupestre no noroeste português pode ser encontrada e percorrida (na maior parte com imagens associadas à ficha de cada elemento) em http://cvarn.org/.

 










ÍNSUA: A ESTRELA DO MAR ESQUECIDA

 



 

Uma nova interpretação da Via XX, ou Per Loca Marítima (via romana descrita no “Itinerário de Antonino”) vem colocar Caminha no mapa do Império Romano. Caminha e em particular a belíssima e perturbadora Ínsua.

 

Há cerca de dois mil anos, o Império Romano, criou a primeira rede intercontinental de vias (umas marítimas, outras terrestres). “Todos os caminhos vão dar a Roma”, traduz, enquanto expressão popular, essa mesma “novidade” na história da humanidade: Os Romanos criaram a primeira rede de caminhos com uma lógica não só militar (permitir a incursão dos seus exércitos, à medida que ia satisfazendo a sua fome de império), como comercial (permitir a ampliação do comércio de mercadorias e a circulação de pessoas entre os mais distantes pontos do mundo conhecido até então). Um mundo que acabaria no Cabo Finisterra (onde a terra acabava e começaria o mundo desconhecido).

 

Se os Actos de Paulo e Tecla (a que nos dedicámos nos três números anteriores do Caminhense) são para muitos o primeiro Romance, enquanto género literário, da história da humanidade, o “Itinerário de Antonino” que faz a relação das vias romanas existentes no Século III – data em que terá sido escrito ou compilado - será o primeiro guia de viagens da humanidade: enumerando localidades, indicando o tipo de estabelecimentos existentes em cada uma delas e as respectivas distâncias.

 

Entre as 372 vias descritas nesse itinerário 34 dizem respeito à então Hispânia (nome Romano para a Península Ibérica) e 11 a Portugal, sendo que 2 destas (as vias nº. 19 e 20) se localizavam todas nesta parte noroeste da Península Ibérica.

 

Um dos quebra-cabeças que a interpretação desse itinerário suscita há séculos, é o de determinar qual seria a exacta localização da via XX, conhecida também por “PER LOCA MARITIMA” e cujo nome significa “através de lugares marítimos. O itinerário dessa via tem sido objecto das mais diversas propostas de localização do seu traçado, não tendo ainda a ciência, os historiadores, navegadores, romanistas, chegado a consenso.

 

Procurar desvendar o enigma da “Per Loca Marítima” que ligaria Braga (Bracara Augusta) a Asturicam, obriga ao cruzamento de vários saberes e fontes, algumas das quais perdidas e de que só se tem conhecimento indirecto. Aos lugares foram sendo dados diferentes nomes, sendo difícil, relativamente a muitos deles, estabelecer correspondência, ao que acresce a alteração da configuração de várias lugares da costa noroeste peninsular.

 

Porém, com o avanço protagonizado pela segunda grande rede na história da humanidade, a internet [no que se incluem as bases de dado geradas e respectivos “motores de busca”, com a progressiva digitalização da que já foi escrito pela espécie humana numa nova Torre de Babel digital, e com as ferramentas que permitem navegar através de toda a terra, proceder a medições exactas e ver até a evolução dos locais na fita do seu tempo, é hoje possível, a qualquer um, procurar decifrar o quadro que tantas e tão estimulantes questões tem suscitado, incorporando-se assim numa discussão em aberto. O quadro do enigma é o seguinte:

 


 

(quadro retirado do artigo, de César M. González Crespán, Parte de la vía romana nº XX “per loca marítima” iba por el mar, publicado no Blog Astrovigo da Associação Astronómica de Vigo a 15/09/2015). [www.astrovigo.es]

 

Recentemente, um navegador/investigador Galego – César M. González Crespán, propôs “Uma Nova Interpretação da Via Romana nº. XX, “per loca marítima”, que aponta para a Ínsua como o termo do primeiro troço daquela mítica via. Estudo publicado na Revista Glaupis, Boletim do Instituto de Estudos Vigueses, Ano XXI – nº. 21 – 2016 e que gentilmente me foi enviado pelo seu autor, a quem agradeço o gesto em tempos de pandemia.

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Defende Crespán  que as quatro secções da Per Loca via se faziam apenas por rio e por mar e não por terra. O Percurso da Per Loca iniciar-se-ia em Braga (Bracara), repartindo o caminho com a Via Romana nº. XIX até Tuy (Tude). A partir deste ponto a Per Loca seria uma variante a essa via até Astorga. A variante constituiria assim a continuação da Via XIX, pela Via XX, com início em Tuy, continuando pelo Rio Minho, águas abaixo, através do seu canal navegável, até à sua confluência com o mar, na Ínsua Nova (designada como Aquis Celenis no Itinerário). De Caminha/Insua seguiria, via marítima, até ao Cabo de Bicos (Vicos Caporum no Itinerário) na Ilha Sul das ilhas Cies. Depois continuaria essa mesma rota em direcção a norte até ao Castro da praia da Lanzada (município e província de O Grove, já na província de Pontevedra) e de aqui seguiria, até chegar à foz do Rio Ulla, na praia de Bamio (na Catoira), próximo das Torres do Oeste (lugar que corresponde no itinerário de Antonino a Glandimiro). A partir deste ponto a Per Loca Marítima, passa a fazer-se por terra, até Santiago de Compostela (Atricondo no Itinerário), passando por Bigantum, Caranico, Lugo (Luco Augusti), chegando então à capital conventual de Astorga.

 

Para chegar a esta proposta de percurso, Crespán enunciou as seguintes razões ou dados:

 

1.     O nome da via “per loca marítima”, significa “por lugares marítimos” indicando que uma parte dessa via decorria por mar;

2.     As unidades de medida utilizadas no itinerário para as quatro secções fluvial e marítimas consideradas, estão em stadia (estádios, correspondendo cada stadia aos 600 pés que media o estádio de Olympia, cerca de 185 metros), ao contrário do que acontece com as unidades de medida que no Itinerário se utilizam para todas as restantes secções millia passum (milha romana, que corresponde a mil passos duplos de um soldado médio em passo natural, não forçado, o que corresponde a cerca 1.478 metros. Ora a unidade de medida stadia era reservada pelos gregos (e romanos) para as medições de navegação ou de astronomia e estava claramente diferenciada dos valores indicados para as restantes secções, já que as quatro secções marítimas do itinerário têm todas magnitudes superiores a 100, começando por “C”, (100 romano) enquanto que nas restantes secções, em que a medida começa por “X” (dez romano);

3.     As distâncias de todas as secções estão equilibradas, sendo da mesma ordem de valores e correspondendo  a jornadas de navegação de ”um dia”.

4.     A existência do Cabo de Bicos na Ilha Sul das Ilhas Ciés (Cabo de Bicos que em latim corresponde ao nome da segunda “estação” marítima indicada no Itinerário: Vicos Caporum);

5.     Aquis Celenis corresponderá também a um lugar na foz do Rio Minho, Moledo, Caminha, ou a Ínsua, que nada tem a ver com localidade com o mesmo nome, em Caldas de Reis, Espanha, Galiza. Para além de ser comum a existência de localidades com o mesmo nome, existe sempre a possibilidade de ter havido erro na transcrição.

6.     O termo latino “item”, advérbio, significa “também” ou “da mesma maneira”.

7.     A terminação “am” em “Asturicam” é de um acusativo e significa “até” (neste caso “até Astorga”);

8.     O advérbio “usque” significa “continuamente”, “sem interrupção”, ou “em continuação”.

 

Esta nova interpretação da Per Loca Marítima vem colocar Caminha no mapa do Império Romano. Caminha e em particular a belíssima e perturbadora Ínsua (Nova, para a diferenciar da dita “Velha”, através da qual esteve em tempos ligada à margem de Camposancos no sopé do Monte Trega (Santa Tecla). Relativamente a esta ligação perdida, existe a referência de um dos primeiros Frades do Convento - Frade Póvoas - que habitou a ilha posteriormente à edificação do Convento Franciscano (1392) que aí existiu até à extinção das Ordens religiosas em 1832, e que deixou aos seus irmãos Franciscanos o aviso de se acautelarem com as cabras de Camposancos, porque estas por vezes vinham comer as heras e a horta!

 

 

 

Este estudo leva-nos à pergunta: Terá Caminha (ou a Ínsua) sido um porto Romano? Corresponderá Caminha à “Aquis Celenis” indicada como estação da Per Loca Marítima?

 

Se lermos as passagens da “Geografia” de Estrabão, (escrito e publicado por volta do ano 23) não podemos deixar de persentir que alguma importância Caminha deveria ter, para merecer do geógrafo greco-romano atenção que este lhe deu:

 

Depois deste, o Báinis  (outros, no entanto, dizem Minho), é de longe o maior dos rios na Lusitânia e igualmente navegável por oitocentos estádios (Posidónio afirma que este corre desde território dos Cântabros). Diante da sua embocadura situa-se uma ilha com dois quebra-mares e ancoradouros. (...) Foi precisamente este o limite da campanha de Bruto.”

 

Refere-se Estrabão a Décios Júnios Brutos, Procônsul da Galaecia e primeiro dos Romanos a chegar a este limite: a Caminha. Aqui terminando a sua incursão pela costa noroeste da Península, contra os Galaicos, procurando vingar o apoio destes a Viriato.

 

Na verdade, no ano 138 antes do nascimento de Cristo, Brutus terá chegado ao Rio Lima. Conta-se que a legião de soldados que o acompanhava, perante tanta beleza, entenderam estar perante o mitológico Rio Lethes, o Rio do Esquecimento, desde que Artabros e Turdulos aí se envolveram em batalha, após o que ambos  os contentores dispersaram, acabando por ficar e povoar as suas margens, tendo-se esquecido do caminho de regresso.

 

Perante aqueles campos, em que reconheceram os Campos Elísios que eram no mito a margem do Rio Lethes e perante aquele Rio, chamado “Esquecimento”, entenderam os Romanos estar perante a fronteira entre o “Mundo dos vivos” e o “Mundo dos mortos”. Estacaram e todos se recusaram a cruzá-lo, como lhes ordenara Décios Brutus.

 

Então no silêncio do temor de todos pelo lugar, Brutus dirigiu-se ao porta-estandarte, retirou-lhe o estandarte com a Águia imperial e empunhando-o ao alto atravessou o rio. Chegado à outra margem, Brutus ( “O Galaico”) ter-se-á voltado para os soldados que permaneciam na outra margem, começando a chamar, um por um, e pelo respectivo nome, os centuriões, os quais, com os seus soldados,  lhe obedeceram então.

 

É este o episódio que se encontra representado na tapeçaria de Portalegre da autoria de José de Almada Negreiros exposta no Hotel Santa Luzia (o mesmo Almada Negreiros que dedicou à Ínsua uma série de “desenhos em movimento” - para serem visualizados em sequência, à luz de uma lanterna - onde se narra outro episódio: o quase naufrágio que sofrera na Ínsua, quando a meio do pic-nic que na ilha decidiram fazer, se abateu uma súbita tempestade, tendo sido todos resgatados a salvo, mas com bastante risco e muitas preces, corria o ano de 1934).

 

Após atravessarem o Rio Lima dirigiram-se os Romanos então mais para norte, pela costa, tendo finalmente chegado ao Rio Minho, o qual terão atravessado, certamente com o mesmo ou maior receio ainda, tendo visto do cimo do promontório a que hoje chamamos Monte Tegra, o Sol a ser engolido pelo Oceano. Um sol de um tamanho como nunca tinham visto e um mar imenso a sorvê-lo para o mundo das trevas, em que subitamente tudo mergulhou. Apavorados os soldados debandaram para sul. As legiões romanas só regressariam ao noroeste peninsular 40 anos depois, com Públio Crasso, que nos anos 96 a.C. comandou nova campanha a noroeste, tendo então tido notícia da riqueza de minérios que esta zona possuía e, muito provavelmente, da navegabilidade final do então Rio Báenis, que latinizando-se passou a ser o Minius de onde vem o nosso Minho.

 

Poucos anos após esta segunda incursão e já após a paz de Augusto, o Geógrafo Estrabão, apoiando-se nos relatos de Posidónio e Plínio o Velho, descreve a foz do Minho da seguinte forma:

 

Em seguida outros rios, e após estes o Lethes, a que alguns chamam Lima e outros Belião; também este flui desde território dos Celtiberos e Vaceios. Depois deste, o Báinis (outros, no entanto, dizem Minius), de longe o maior dos rios na Lusitânia e igualmente navegável por oitocentos estádios (Posidónio afirma que este corre desde território dos Cântabros). Diante da sua embocadura situam-se uma ilha e dois quebra-mares com ancoradouros. É justo louvar a natureza, porque estes rios têm as margens altas e capazes de receber o mar nos seus canais quando a maré sobe, de modo que não transbordam nem inundam as planícies. Foi precisamente este o limite da campanha de Bruto; mas mais adiante existem muitos outros rios, paralelos aos mencionados.” (in Geografia, Estrabão, cerca de 20 d.c.. Ou seja: há dois mil anos, a Ínsua já era descrita e utilizada, como revela a existência de dois ancoradouros).

 

Ou seja: há dois mil anos, a Ínsua já era descrita e utilizada, como revela a referência à existência de dois ancoradouros.

 

Porém, a primeira referência escrita conhecida sobre a Ínsua, é atribuída por muitos à seguinte passagem do “poema geográfico” conhecido por “Ora Marítima” ou “Orla Marítima”, de Rufo Fiesto Avieno, e que seria uma compilação, tradução de escritos de viagens (périplos, como se chamavam), de navegadores do Século V a.C.: Diz-se nessa parte do poema:

 

“Existe depois (“depois” de “duas ilhas, despovoadas pela estreiteza das suas paragens“, que parecem corresponder às duas ilhas Cies) antes das Rias de Vigo. uma ilha, em alto mar, rica em plantas e consagrada a Saturno. Porém, a força da sua natureza é tão potente que se algum navegador se aproximar, imediatamente o mar em volta da ilha se revolta, e a própria ilha agita, estremecendo o seu chão desde as profundidades, enquanto que todo o restante mar circundante permanece silencioso como um lago.” (in Ora Marítima, Afieno, Séc. IV, baseando-se provavelmente no Périplo de Himilicão – que remonta ao Século V a.C.).

 

Ora, se a Ínsua era conhecida pelos Romanos desde a sua chegada ao noroeste peninsular, se o Rio Minho, que nela desagua era já então navegável, pelo menos até Monção e se tivermos presente quer a existência de salinas por toda esta região, com destaque para as que recentemente foram postas a descoberto no Seixal, parece fazer todo o sentido a proposta de Crespán.

 

Com esta nova interpretação da Per Loca Marítima, a Ínsua e o Rio Minho (até Tuy) entram no mapa do Império Romano, a que se somam as Ilhas Cies, a Praya da Lanzada e a Praia do Castro da Catoira. Trata-se de um percurso de “cortar a respiração” pela intensa beleza dos lugares que cruza (a meio deste percurso temos Cerveira, seguida pelas ilhas da Boega e dos Amores, depois aquela a que chamam “Bela Marinheira”, Caminha e logo: a Ínsua.

 

A Insua a quem o Prof. Hermano Saraiva dedicou ums dos seus últimos programas que termina com um grito de socorro por esta ilha, entretanto esquecida de um passado que agora ressurge na teoria de Crespán, confirmando as suspeitas de muitos: que a Per loca Marítima passaria necessariamente por Caminha, que a dada altura seria conhecida por Aquis Celenae, Silenae, ou Cilenis.

 

Ignoro em absoluto se até à data foi realizado qualquer levantamento arqueológico na Ínsua. A teoria de Crespán e as referências da antiguidade à existência de dois ancoradouros;  o facto da Ilha poder ter sido habitada, ou de alguma forma objecto de rituais de culto, ainda antes do início da construção do Convento (o que seria possível dada existir na ilha uma fonte de água doce;  a mesma fonte que permitiu que frades lá vivessem a partir de 1392, alguns deles por mais de duas décadas sem nunca irem a terra); as referências à existência de uma ermida de culto a Santa Maria da Ínsua, nomesmo lugar onde depois foi edificado o Convento; as referências à prática na ilha de um um culto pré-românico a Saturno (para outros, a Neptuno); a existência de inúmeras camboas (poças escavadas nas rochas que funcionavam como armadilhas para os peixes que ali ficavam retidas após a baixa da maré) e de dois cemitérios, ainda hoje referidos por quem por último viveu na Ilha: os faroleiros, constituem razões para ficar na expectativa do que possa mais vir a ser descoberto.