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21.1.10

PICALIMA


(logo do Blogue de Picalima "syderado", retirado dali)


Picalima, já sobre ele escrevi aqui antes, no mês de Novembro, ainda dentro deste Inverno, que para mim começa sempre muito antes do Outono acabar, ainda dentro do Inverno do Inverno em que o vi pela última vez, com os acessórios todos da invernia (lareira, aguardente, leituras na atmosfera do frio e chuva lá fora, e nós ali, no monte Amor aos Montes do tempo suspenso). Hoje, descobri que fez um blogue, um blogue que se chama syderado, o nome tem a propriedade dos bons rótulos que conseguem ser significado e significante ao mesmo tempo. Syderado de Syd Barrett, siderado como o Picalima, que assim vive, "atropelado pela vida" (sic) em constante sideração. Para já está lá uma das mais arrebatadoras cartas de amor que li na vida, se quiserem ler está aqui.
Não pares Picalima, ou para, mas escreve sempre, por favor!

21.11.09

O REMORSO DO ELOGIO (ou mais um texto piegas)

Ontem li cinco poemas absolutamente únicos. Únicos para mim que resisto a ler poesia e que só consigo ler poemas escritos pelos poucos de que por acaso gostei muito. Tínha quinze anos quando ouvi pela primeira vez o poema de Fernando Pessoa chamado "Aniversário".[ Foi numa das primeiras Bienais de Cerveira. Gondarém é uma aldeia a 2 Km de Cerveira e foi o sítio onde cresci o que se cresce nas férias de Verão, nessas férias de Verão cresci muito. Depois do jantar pegava na biciclete e ia ver o que acontecia à noite num enorme pavilhão inóspito onde a um canto se juntavam pessoas que faziam coisas. Uma delas era um actor brasileiro com um nome que o tempo transformou em Sami Lufi, mas que não deveria ser esse.] Com umas mãos enormes ele leu aquele poema que acabou e acaba assim:

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos, na loiça com mais copos,
O aparador com muitas coisas . doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado .
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... Era ainda aquele em que eu ouvia aquilo! Como era aquele o tempo em que ninguém ainda tinha morrido, mas o poema antecipava-se e conseguia através dele rever o tempo em que estava. Esse "efeito especial" da poesia, de fazer o pensar sentir, senti-o então pela primeira vez e foi o responsável por não conseguir ler a maior parte dos poemas que não o proporcionavam e de ficar adito aos que o tínham (António Maria Lisboa, Jacques Prevert; António Botto; Herberto Helder; Sophia de Mello Breyner, Baudelaire).

Os poemas que li ontem fizeram-me sentir esse efeito meio atordoante das ideias e sensações que se formam, paradoxalmente, só a partir do halo das palavras e não com elas.

Depois, nesse mesmo blogue li um comentário que me fez temer o pior. Aquela torrente de poemas absolutamente fantásticos poderia acabar, a "fonte acaba-se", advertia o comentador. A resposta dada pela autora a esse comentário não me deixou mais tranquilo. O comentário era sobre este poema (de Sylvia Beirute):

LEITURA EXPLÍCITA

{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.

A resposta da autora ao comentário continua o poema "... como diz o presente poema, pouco me importa o futuro. Escrevo a um ritmo natural.".

Mas o pior de tudo veio quando a propósito do que escrevi antes, no que aqui se chama "post" anterior", a autora escreveu que elogios como aquele estragavam. Se estragam não sei, mas receio que interrompam, que contaminem, que alterem por um instante o curso das coisas e por isso os remorsos do elogio. Oxalá não.

Sylvia Beirute / Uma casa em Beirute


Foto de Perfil de Sylvia Beirute

Por causa de um comentário descobri este blogue. É raro falar dos blogues que leio, por pudor, por descrição. O único que ainda refiro é o de D. Funes, porque é superiormente inteligente em muito do que escreve. Hoje descrobri um blogue que me fez não resistir ao dever de o divulgar na expectativa de que aquilo que senti ao ler os cinco últimos posts não seja sinal de demência. Leiam e digam se não é absolutamente impar!

18.11.09

Num cais decadente estão sentadas duas silhuetas, olham para um barco à vela que passa muito longe

Avô: Eu já tive.
Neto: Eu nunca.

Avô: Eu sei.

Neto: Eu quero.
Avô: Eu sonho.

14.11.09





("abro páginas encontro espelhos" é o nome de um blogue para quem foi feito este desenho)

6.10.09

Resposta a D. Funes

"Funes El Memorioso" (que se chama "A Questão dos Universais", ver aqui) é para mim o melhor Blog dos que diariamente leio. Por causa de quem o escreve (que em absoluto desconheço) e muito também por causa de quem o comenta. Hoje recebi um comentário do seu autor à última coisa que aqui publiquei (ver aqui o comentário). A resposta que preparei não cabia na caixa dos comentários e, por isso, vem para aqui:

D. Funes:

Eu não sabia, mas a minha ignorância é imensa, como muito grande o gozo de a ir constatando.
O livro ontem lançado pela Fundação Mário Soares sobre a participação da Maçonaria na Implantação da República chega a parecer ingénuo porque acaba por revelar o que antes era pacífico por opiniões e agora parece tornar-se público por documentos.

Como nele se escreveu, citando Mário Machado Santos (in A Revolução Portuguesa 1907-1910): "A obra da Revolução Portuguesa também à Maçonaria se deve, única e exclusivamente.".

O livro acaba por não só confirmar isso, como por revelar o que tendo nascido para permanecer secreto, acaba por dizer mais do que aquilo nasceu para ser conhecido.

Refiro-me às cartas enviadas pelas lojas ligadas à Grande Loja do Oriente Lusitano Unido, em resposta ao deliberado na reunião de Junho de 1910, onde terá sido decidida a constituição de uma tal Comissão de Resistência que parece ter estado na origem dos acontecimentos de 4 e 5 de Outubro do mesmo ano.

Uma das cartas publicadas (a única que no livro contrasta com o uníssono da aceitação do então deliberado) vale a pena ser transcrita, ainda que abusando deste lugar (em vez de colocar esta resposta na resposta ao seu comentário, que agradeço, o que não é possível porque excede o número de 4 mil e não sei quantos caracteres de limite máximo):

"A RESPEITÁVEL LOJA ESTRELLA D'ALVA:

Caros e Respeitáveis Irmãos,

Esta Respeitável Loja reuniu extraordinariamente para apreciar as pranchas (circulares nºs 12 e 19) de 20 e 30 de Junho, e começando por apreciar a forma fácil e leviana como as mesmas pranchas lhe foram dirigidas, attentos o segredo e a gravidade do assumpto a que ellas se referem, pois não só errou o nome do nosso Venerável Mestre Interino João Rodrigues Paula, como outras vezes tem succedido, chamando-lhe José e não João, mas também por terem vindo em envelopes quasi que descolados de forma a poderem ser abertos por qualquer curioso, ou por qualquer inimigo da Ordem como muitos existentes na Repartição dos Correios e Telegrafos.

Entende esta Respeitável Loja que assumptos d'esta natureza deviam ser tratados pessoalmente por delegados do Grande Oriente Lusitano Unido e nunca por escripto e pela forma como estão sendo. Depois de larga discussão, apreciando-se com toda a serenidade a doutrina das mesmas pranchas esta Respeitável Loja votou e approvou, para vos ser enviada a seguinte:

Moção

A Respeitável Loja Estrela d'Alva do valle de Coimbra, reunida extraordinariamente para apreciar as pranchas emanadas do Grande Oriente Lusitano Unido afim de estabelecer guerra aberta contra as eis e excepção, e contra os inimigos da liberdade que tanto teem perseguido aqueles que pretende defender as causas justas perante a sociedade;

Considerando que o período de maior efervescencia de perseguição se assignalou quando no Governo o partido progressista aliado à reacção clerical;

Considerando que com a subida ao Poder do novo Governo essas violencias cessaram e por enquanto não ha vestigios de novas perseguições, havendo até esperanças que se adoptem medidas liberaes tendentes a fazer entrar na ordem o elemento reaccionario;

Considerando que a Maçonaria tem por dever auxiliar o Governo nas suas intenções de reformaras leis de excepção, como já anunciou, e nunca contrariar este plano o que seria anti maçonico e liberal;

Considerando que a Maçonaria pela sua lei, deixa livre aos seus adeptos qualquer opinião política, e assim tem admitido no seu seio Irmãos de todos os partidos e muitos empregados públicos, que apesar de não serem republicanos, são liberais sinceros e desapaixonados, e que desejam a paz e o bem-estar da sua Pátria e Família;

Considerando que das pranchas em questão se vê visivelmente pretender-se desviar a questão religiosa para a questão política o que é contrário às leis em vigor;
Considerando finalmente que esta Respeitável Loja tem ausente o seu Venerável Irmão Capitão Cruz; o seu secretário Raúl Vieira, que teve de se retirar para Lisboa, e muitos outros Obreiros do seu quadro que já estão no gozo de férias;

A mesma Respeitável Loja com o devido respeito resolve não tomar interferencia directa ou indirecta no citado e pretendido movimento a que se referem as aludidas pranchas afirmando contudo a sua solidariedade maçonica quando para isso haja necessidade.

Traçado em lugar oculto aos profanos aos 12 de Julho de 1910 (era vulgar)

O Venerável Mestre Interino
João Rodrigues de Paula grau 29
"

Dou-me ao trabalho de transcrever aquela carta pelo que parece confirmar que mesmo em 1910 não seria pacífico que entre a própria Maçonaria fosse essencial aos seus princípios a instauração da República.

Quanto à não punição dos seus agentes e ao desinteresse de todos nessa tarefa, julgo que haverá que distinguir entre o pós Fevereiro de 1908 e o pós Outubro de 1910.

É certo que o processo desapareceu, como é certo que neste momento não se trata de punir mas e reconstituir uma história.

O que o livro em questão parece trazer de novo é a circunstância de Aquilino ter testemunhado em 28 de Janeiro de 1910 o testamento/confissão de Manuel Buiça, três dias antes do regicídio. Poderá no entanto ser um lapso e haver confusão entre o apadrinhamento efectivamente feito pelo Aquilino do filho mais velho do mesmo Buiça e o "apadrinhamento" daquela carta suicida (que poderá não ter acontecido, ao contrário do que lá está escrito.

UF, Fim.