12.6.10
QUERIDOS AMIGOS DOS ALMOÇOS PERFEITOS,
17.2.10
SOLMAR - GRANDE CERVEJARIA SOLMAR - GUIMARÃES EDITORES - BERNARDO SOARES - LISBOA - AGUSTINA
3.1.10
ANNI BERÇÁRIO
O vento é o mesmo, ou não? Renovar-se-à ele numa caverna onde entra velho, turbilha e sai novo? E a luz? Quando se esvai vai onde? Terá o mesmo destino do orvalho que se perde no lugar que está para lá de nós, como o que está por debaixo da terra, a caverna do vento a central do orvalho o lugar da luz? E as lágrimas? O que é que têm que ver com o orvalho? E o riso, o bafo do riso que há pouco fez levantar um antigo bilhete de eléctrico, verde e com um pequeno furo na quadrícula de números, [para onde foram todos aqueles bilhetes, tantos, finos, de papel precocemente desbotado, como o tempo deles o era, antes do 25 de Abril, em Lisboa (desbotado não, pastel, pastel não, suave)], o que é que o riso tem a ver com o vento? E o olhar com a luz? De onde vem o sempre? Qual o início da corrente? Onde está o nó da repetição? O elo soldado? A cadência que se repete e que nos permite saber o resto de cor, antecipar a ordem da sequência? O cavalinho do carrossel outra vez?
24.11.09
MEMÓRIA
23.11.09
PORQUE NÃO FALA HERBERTO HELDER?

Acordo com a notícia do aniversário de Herbeto Helder. Leio a sua biografia e encontro isto:
"Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira nasceu a 23 de Novembro de 1930 no Funchal, ilha da Madeira, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, com 16 anos, viaja para Lisboa para frequentar o 6º e o 7º ano do curso liceal. Em 1948, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, em 1949, muda para a Faculdade de Letras onde frequenta, durante três anos, o curso de Filologia Romântica, não tendo terminado o curso. Três anos mais tarde regressa a Lisboa, começando por trabalhar durante algum tempo na Caixa Geral de Depósitos e depois como angariador de publicidade, sendo que durante este tempo vive, por razões de ordem vária e pessoal, numa «casa de passe».
Em 1954, data da publicação do seu primeiro poema em Coimbra, regressa à Madeira onde trabalha como meteorologista, seguindo depois para a ilha de Porto Santo. Quando em 1955 regressa a Lisboa, frequenta o grupo do Café Gelo, de que fazem parte nomes como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. Durante esse período trabalha como propagandista de produtos farmacêuticos e redactor de publicidade, vivendo com rendimentos baixos. Três anos mais tarde, em 1958, publica o seu primeiro livro, O Amor em Visita. Durante os anos que se seguiram vive em França, Holanda e Bélgica, países nos quais exerce profissões pobres e marginais, tais como: operário no arrefecimento de lingotes de ferro numa forja, criado numa cervejaria, cortador de legumes numa casa de sopas, empacotador de aparas de papéis e policopista. Em Antuérpia, viveu na clandestinidade e foi guia dos marinheiros no sub mundo da prostituição.
Repatriado em 1960, torna-se encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, percorrendo as vilas e aldeias do Baixo Alentejo, Beira Alta e Ribatejo."
Procuro uma entrevista e encontro esta, onde a certa altura, entre muitas outras diz isto "Resta-me acrescentar que o prestígio que possa ter alcançado (prestígio equivoco no qual se integra a malquerença de alguma gente, que aceito com satisfação) não poderia constituir uma poltrona. O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia." A entrevista é de 1964, ao Jornal de Letras e Artes, sendo o seu interlocutor Fernando Ribeiro de Mello. Parece que foi a única que deu até hoje. A certa altura sobre o crítico (e também sobre o leitor") diz isto: "A crítica? Bem vê: nas circunstâncias em que me encontro, a crítica não me poderia ajudar. Ela de resto nunca ajuda um autor. Tende afazer de mediadora entre uma linguagem e um entendimento. Ajudará o leitor. Visto que bani das minha preocupações a ideia de comunicação, não considero a intervenção desse primeiro decifrador, do mediador. Porque não estou interessado em que o leitor adira...".
Leio com muita dificuldade os livros que escreve Herberto Helder, cansa-me ou para utilizar uma palavra de que tenho vergonha e que parece figura literária ou de histeria, esgota-me. Não consigo ler mais do que um poema por dia e têm sempre um efeito avassalador do real, como alguns pesadelos têm, só que o efeito daqueles escritos dura mais.
Não se trata assim de gostar ou não do que escreve, trata-se de como lidar com o poder daquilo que escreve e eu lido mal, fico de rastos com a vida, comigo, com o que até aí era neutro e superficial e que aparece virado do avesso e me tira o sossego da paz, da idiotia.
Procuro mais qualquer coisa e parece que em 2002 deu a si próprio uma entrevista publicada numa revista Brasileira chamada Inimigo Rumor. Procuro o texto completo da "auto-entrevista", encontro vários excertos mas nada do texto completo.
Vou à Biblioteca Nacional procurar um exemplar do nº. 11 daquela revista (onde está a tal entrevista). Não está, apenas o nº. 15. Telefono para a editora em Portugal da Revista (A Cotovia). Que sim que têm o número. Meto-me no carro e vou lá, passo pela livraria a caminho do lugar do carro que hei-de encontrar, até porque são quase sete horas da tarde. Quando passo vejo a funcionária de relance e animo-me. Quando finalmente chego a Livraria está fechada. Espreito e vejo um gato preto que me olha desde uma cesta. Penso, se o gato está aqui alguém vai aparecer. Apareceu. Apareceu a Senhora que fazia a limpeza. Expliquei-lhe ao que vinha e perguntei se me podia ajudar. Perguntou-me se sabia qual o nº. da Revista que procurava, respondi. Foi então direita à estante onde está a revista e entregou-me. Como não trazia o preço ligou para a rapariga que "olhe acabou de sair há dez minutos". Não atendia. Foi buscar um outro exemplar e esse trazia o preço. Saí com a revista na mão.
Na revista, na tal auto-entrevista encontro isto: "Num poema escrito após o clamor elogioso a Under the Volcano, Malcolm Lowry diz que o sucesso é uma catástrofe terrível, pior do que o incêndio da nossa casa; chama-lhe danação; diz que devora a casa da alma; ele, o glorificado, teria preferido soçobrar na noite. "Fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite." Segue-se a tradução desse poema de Malcolm Lowry por Herberto Helder:
A glória é como uma terrível catástrofe,
Pior que a casa incendiada; enquanto
se abate a trave mestra, o fragor
da destruição repercute-se cada vez mais depressa;
e tu contemplas tudo aquilo, inane
testemunha da danação.
Como uma bebedeira a glória devora
a casa da alma, revela que trabalhaste
para coisa pouca: para ela –
ah, queria que esse beijo traiçoeiro nunca tivesse
molhado a minha face: queria
fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite.
Fico com um enorme sono, daqueles que tornam um acto de bravura conseguir levantar-me para apagar a luz do tecto que devia ter-me lembrado de apagar antes de me ter deitado, deixando só o candeeiro da mesa de cabeceira. Que digo eu!
Adormeço, são nove e meia da noite, nem com Gripe adormeço às nove e meia da noite. Acordo passado meia hora. Sonhei outra vez um daqueles medonhos sonhos de infância, em que um touro enorme, branco se passeia pela sala, onde estou num sofá com os outros, com quase todos, embora sejam só quatro e eu. Preocupa-me o facto de só eu me preocupar com o que o bicho possa fazer.
Acordo. Acho que agora estou acordado e acabo de escrever isto antes que o dia de aniversário de Herberto Helder termine.
"A Vida Segue nas Páginas em Branco" [Picalima]

Picalima
21.11.09
O REMORSO DO ELOGIO (ou mais um texto piegas)
Ontem li cinco poemas absolutamente únicos. Únicos para mim que resisto a ler poesia e que só consigo ler poemas escritos pelos poucos de que por acaso gostei muito. Tínha quinze anos quando ouvi pela primeira vez o poema de Fernando Pessoa chamado "Aniversário".[ Foi numa das primeiras Bienais de Cerveira. Gondarém é uma aldeia a 2 Km de Cerveira e foi o sítio onde cresci o que se cresce nas férias de Verão, nessas férias de Verão cresci muito. Depois do jantar pegava na biciclete e ia ver o que acontecia à noite num enorme pavilhão inóspito onde a um canto se juntavam pessoas que faziam coisas. Uma delas era um actor brasileiro com um nome que o tempo transformou em Sami Lufi, mas que não deveria ser esse.] Com umas mãos enormes ele leu aquele poema que acabou e acaba assim:
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos, na loiça com mais copos,
O aparador com muitas coisas . doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado .
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... Era ainda aquele em que eu ouvia aquilo! Como era aquele o tempo em que ninguém ainda tinha morrido, mas o poema antecipava-se e conseguia através dele rever o tempo em que estava. Esse "efeito especial" da poesia, de fazer o pensar sentir, senti-o então pela primeira vez e foi o responsável por não conseguir ler a maior parte dos poemas que não o proporcionavam e de ficar adito aos que o tínham (António Maria Lisboa, Jacques Prevert; António Botto; Herberto Helder; Sophia de Mello Breyner, Baudelaire).
Os poemas que li ontem fizeram-me sentir esse efeito meio atordoante das ideias e sensações que se formam, paradoxalmente, só a partir do halo das palavras e não com elas.
Depois, nesse mesmo blogue li um comentário que me fez temer o pior. Aquela torrente de poemas absolutamente fantásticos poderia acabar, a "fonte acaba-se", advertia o comentador. A resposta dada pela autora a esse comentário não me deixou mais tranquilo. O comentário era sobre este poema (de Sylvia Beirute):
LEITURA EXPLÍCITA
{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.
A resposta da autora ao comentário continua o poema "... como diz o presente poema, pouco me importa o futuro. Escrevo a um ritmo natural.".
Mas o pior de tudo veio quando a propósito do que escrevi antes, no que aqui se chama "post" anterior", a autora escreveu que elogios como aquele estragavam. Se estragam não sei, mas receio que interrompam, que contaminem, que alterem por um instante o curso das coisas e por isso os remorsos do elogio. Oxalá não.
MAGALHÃES
Não o convenci e a mãe relembrou-me a importância das promessas e eu lá fui, lá encontrei a segunda edição do mono e lá vi o meu filho começar a tratar dele como eu tratei o meu urso de peluche que também tinha um nome que não era de família (Magalhães). De resto o início do afecto entre aquela criança e a coisa, foi idêntico, à excepção da parte da cama, porque aí não o deixei dormir com o portátil, mesmo se fechado, mesmo se a parte azul de napa pode servir de almofada (também não lhe deixei dar de beber e comer com uma colher ou bibron).
Foi assim a chegada do Magalhães a casa. Continuava - observei - a sua condição marginal e junto dos outros computadores residentes, junto do portátil dos irmãos mais velhos, aninhava-se na amizade do seu dono, formando os dois uma ilha insólita, do mesmo insólito que ficava o seu pequeno dono a escrever no teclado sem ainda saber ler ou garatujar as primeiras letras (não obstante a excelência da escola).
As primeiras utilizações do dono do Magalhães foram "gatos giros", "jogos do Pinguim", "Coalas patuscos", "jogos com fantoches" e "jogos com pessoas verdadeiras". Há muito que ele já sabia abrir a internet, encontrar o Google e pedir-nos que escrevessemos o que pretendia encontrar. Uma vez escrito mandáva-nos embora com um "agora podes ir que eu já sei" (e lá ficava durante o período de tempo consentido).
A partir do momento em que passou a ter o seu Magalhães o mesmo passou a ser só dele e teria de ser ele a escrever o que procurava. Arranjou então um caderninho onde nos pede para escrevermos o que nos dita com as letras iguais às que estão no teclado do seu novo amigo, depois, com o bloco em punho, senta-se na sua secretária minúscula e lá vai ele procuraro que pediu, o que pediu não, porque a parte dos "jogos com pessoas" não teria piada para ele, assim tentei explicar, como não consegui negociei que começasse por experimentar as outras coisas, abstendo-me de escrever essa parte do pedido no caderninho.
Hoje ele foi para casa da avó e eu não resisti a experimentar o amigo Magalhães, de onde escrevo neste momento. Bem sei que não devia e que há essa coisa da privacidade e da possibilidade disto ser até considerado violência doméstica ou qualquer crime dos novos crimes informátcos. Bem sei. Mas sei também que o Santiago não se vai importar, ou vai-se importar dizendo com o sorriso que é só dele e conquista quem ainda não é dele: "onde é que já se viu um pai a trabalhar no Magalhães do filho!".
Bom, isto tudo para dizer que estou positivamente encantado com isto. Nunca tive um computador que fosse tão rápido no ligar e desligar. É sólido, só traz o que faz falta, tem mesmo o office em versão de experiência por 60 dias e o leve Windows 7. Feito para durar, para resistir, tem essa condição de nascença inscrita nas teclas, no écran, no redondo das formas. Terá sido assim que o Vokswagen carocha nasceu e sobrevivu até hoje. O patinho feito revela-se e se não o faz de propósito parece que dá tudo para fazer deste momento em que o uso à má-fila, uma primeira oportunidade para me convencer de que é o futuro, o futuro do anti-gadget, o futuro do emagrecimento das multiplas funções e esquisitices desnecessárias das coisas. O futuro é o Santiago a escrever sem saber ainda, no seu Magalhães, naquela secretária pequena onde agora o vou voltar a arrumar.
Sylvia Beirute / Uma casa em Beirute

Foto de Perfil de Sylvia Beirute
Por causa de um comentário descobri este blogue. É raro falar dos blogues que leio, por pudor, por descrição. O único que ainda refiro é o de D. Funes, porque é superiormente inteligente em muito do que escreve. Hoje descrobri um blogue que me fez não resistir ao dever de o divulgar na expectativa de que aquilo que senti ao ler os cinco últimos posts não seja sinal de demência. Leiam e digam se não é absolutamente impar!
18.11.09
Num cais decadente estão sentadas duas silhuetas, olham para um barco à vela que passa muito longe
Neto: Eu nunca.
Avô: Eu sei.
Neto: Eu quero.
Avô: Eu sonho.
7.11.09
GRIPE A, Porquê Eu, Porque Não Eu?
Como não se fazem análises à Gripe A nos Hospitais vou a um Laboratório, tal como na Segunda Feira foi o meu filho mais novo que tem seis anos, a que sucedeu o primeiro resultado positivo na família e que desencadeou a corrida às análises dos restantes quatro irmãos, do pai e da mãe, da avó, tios primos e visitas da casa, que apesar de não existirem gosto de invocar como se existissem, pelo que soa a boa e velha burguesia rural.
Decido narrar estes factos apesar da repulsa que tenho pelos assuntos das doenças, sobretudo quando a partir de certa idade se tornam tema dominante das conversas, perdendo-se o pudor e o decoro como aos seis ou sete se perdem os dentes de leite. [Um amigo Espanhol falava-me da expressão dar uma "pancada", por eles usada para significar o conselho gratuito que se pedia ao advogado ou ao médico. A propósito da pancada (palavra que voltava a dizer a cada vez que me ligava para pedir um conselho ou fazer uma pergunta relacionada com o meu trabalho) contava-me uma pequena história, aparentemente para me pôr à vontade para o mandar à fava, na verdade impedindo-me de o fazer, sob pena de o tratar como uma das personagens dessa história que era a seguinte: Num jantar uma senhora fica ao lado de um médico. A meio do jantar a senhora começa a falar das hemorroidas do marido, que a ouve cabisbaixo. A certa altura o médico interrompe-a e pergunta-lhe se quer mesmo que ele a ajude quanto a isso. Ela responde que sim, ao que o médico lhe diz, então peça ao Senhor seu marido para nos mostrar isso. Agora? Sim agora. Aqui? Sim aqui. A conversa acaba ali.].
Os factos resumem-se ao seguinte:
Na passada Terça Feira fiz a tal da análise. No dia a seguir telefonaram-me do laboratório e antes mesmo de dizerem o resultado perguntaram-me como me sentia, como era o meu estado clínico. Percebi o resultado e atalhei a conversa perguntando desnecessariamente à Senhora preocupada: - quer dizer que então é positivo o resultado? Disse que sim. - O seu e o da sua mulher. Atalhei ainda mais a conversa. - Boa tarde, obrigado. Desliguei o telefone e pensei, vou para casa, esperar, vou esperar em casa, vou esperar sentado.
No trajecto vou à farmácia e compro o Tamiflu com a receita que trazia de prevenção por causa dos três maços por dia, de seguida compro um pacote de Gauloises, duas garrafas de vinho branco, umas entradas daquelas típicas de quem não cozinha mas gosta de ter uma mesa apetitosa, nem que seja no braço do sofá. Chego a casa e começo então a espera, preparo-me para o eu que não imagino mas em que me transfiguro com a febre, como aquele que há um ano erscreveu aqui isto.
Hoje é Segunda, passaram seis dias desde a análise e, em princípio, dez desde que o bicho entrou. Apesar de algum descoforto e atordoamento nada de especial se passou, não cheguei a ter febre, as dores no peito foram mais psicosomáticas do que dores e o "estado de desorientação", como lhe chamaram na linha da gripe, é apenas uma variante do meu estado habitual.
Conto isto tudo porque estou convencido (o convencimento da fé) que o tal Tamiflu - tomado imediatamente após o resultado da análise de forma a que actue nos primeiros dias de disseminação do vírus - terá sido a explicação para os dias benignos e quase felizes (não fora a expectativa de um mal maior à espreita) que levo em casa.
Conto isto para dizer o mesmo que procurei hoje perceber se era do conhecimento da tal linha da gripe. Perguntei à eficiente Enfermeira que me atendeu se estavam a registar a informação que cada pessoa lhes dava sobre o seu caso concreto (tempo de incubação, data da análise e primeiros sintomas, reacções ao Tamiflu, febre ou não febre, casos de ausência de febre, etc.). Perguntava isto porque estava convencido que essas linhas funcionan quer para informar quem liga, quer para informar quem atende do que se está a passar, em tempo real, habilitando quem esteja a tratar do assunto da informação essencial para lidar com ele.
Percebi que não. A única coisa que fica registado são os nossos dados pessoais, o nome a morada e o telefone, o resto é "palha", ou seja, o que eu digo sobre o meu caso, o que eu conto sobre as análises que fiz na Terça e o Tamiflu que tomei na Quarta, o que relato sobre a ausência (até ao momento) de febre ou qualque outra moléstia mais grave típica das gripes, atribuindo o sucesso ao tal do Tamiflu, tudo isso é ouvido como se fosse conversa a mais e desnecessária, jáque se não tenho nada de procupante estou a embaraçar a linha. Desligo.
Volto ao meu casulo em que tornei a casa omnde "no pasa nada" a não ser os filmes da TV Cine, o homem ds Pizzas ou do "No Menu", e nós como na música do Sérgi Godinho, à espera do ocombio na paragem do autocarro.
Passaram-se cinco dias desde a análise e, muito provavelmente onze dias desde o contágio. Segundo dizem o período de incubação (e também aí não parece existir consenso que permita uma informação objectiva) é de cinco dias. Também segundo dizem o período de doença é de quatro a sete dias. Até agora nada de especial, apesar dos tais três maços por dia (agora reduzidos drástica mas não totalmente a meio maço, para que o organismo não se ofenda com a hipocrisia).
Uma coisa parece-me evidente: as análises deviam ser feitas em qualquer hospital nos casos de risco, ou seja nos mesmos casos em que a vacinação está programadas ou aconselhada. Se a eficácia do Tamiflu é a que dizem (e a que parece ter tido no meu caso) e se essa mesma eficácia depende da circunstância de ser tomado logos nos dois primeiros dias do início da actividade do vírus, então parece elementar que essa análise seja proporcionada a quem se diz que lá mais para a frente terá de ser vacinado. Para terminar. O preço das análises varia entre os 40 Euros e os 100 Euros e parece que não são comparticipadas. Não percebo isto. Sinceramente não percebo.
2.11.09
ANTÓNIO SÉRGIO e DON’T WALK AWAY IN SILENCE
Atmosphere, ouvida hoje aqui:
A mesma música voltou várias vezes ao longo dos anos desde que a ouvi pela primeira vez.
A primeira vez que se ouve uma música nunca é a primeira vez.
Esta só a ouvi pela primeira vez quando a senti totalmente minha
No mesmo tempo em que sentia totalmente meus alguns parágrafos do Livro do Desassossego ou de Baulelaire, nos mesmos fins de tarde que eu sentia totalmente meus e desabitados de quem eu tanto queria que existisse para os repartir comigo.
Don't walk away in silence, era ouvido enquanto caminhava com um sobretudo que era o primeiro que tinha comprado, justificado pelo frio que fazia muito mais em Coimbra que em Cascais, pretexto de um miúdo que com 19 anos dizia à sua namorada: mas eu sou um miúdo não vou comprar um sobretudo. E comprei e com ele senti-me a caminhar sozinho e a contrariar com uma forçada rebeldia o conselho que sabia profético para tudo o que viria a seguir: DON'T WALK AWAY IN SILENCE.
A voz de António Sérgio tinha tudo a ver com essas coisas que julgava só minhas e era a única voz que não interrompia as canções que tinham aquela tonalidade dos anos 80 e dos jardins de Coimbra e dos fins de tarde de Inverno do pontão de Cascais. A voz vinha do mesmo lugar.
Deixei de habitar esse lugar de onde vinha essa voz. Estou convencido que o abandono desse lugar se ficou a dever à lei da sobrevivência na sua expressão mais pura. Nesses anos em que habitava a intensidade da canção dos Joy Division, continuada pela voz de António Sérgio, ambas revelando que aquilo era mais do que um ambiente, ou inspiração, era uma forma de vida a que os outros (como eu) chamavam estado de espírito, um estado de espírito em que se pode viver nos nossos 18, 19 ou parte dos 20 anos, mas que depois não se aguenta e depressa cede ao "não estado de espírito" que rapidamente se torna condição de viabilidade, de funcionabilidade nas tarefas que progressivamente vamos tendo para desempenhar.
Nunca conheci o António Sérgio mas sinto que era dos últimos guardiões desse estado-de-espírito que não consegui aguentar mais do que o tempo do fim da adolescência. A cada vez que o ouvia, o timbre da sua voz era o suficiente para eu perceber a distância a que entretanto estava do tempo em que eu sentira que sentia de verdade.
Hoje ouço a música dos Joy Division, postada pelo Diogo Leote no "é tudo gente morta" e é um enorme tributo. Ouça-a outra vez e dou por mim a pensar que quem foi embora em silêncio fui eu, em silêncio, há muito tempo, sem conseguir continuar o lado sombrio e rebelde daqueles anos, sem o ter explorado até ao último resto de estilo desse cepticismo blazzé, desencantado e profundamente elegante. Penso nisto, releio a frase do Diogo sobre as vezes que encontrou António Sérgio a almoçar sozinho num Restaurante, "com o seu estilo inconfundível entre o rocker e o cow-boy" e parece-me evidente que viveu muito mais do que eu que há muito me fui embora em silêncio.
Obrigado Diogo pela lembrança do Rools Rock, obrigado pela revelação desta música hoje, que se pode ouvir aqui, no caso de alguém querer tentar compreender poque só hoje, com ela e com a morte de António Sérgio, eu entendi estes últimos versos da canção:
People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,
Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don't walk away in silence,
Don't walk away.
1.11.09
Angústia ao Jantar (de Domingo)
20.10.09
Piove
E o sossego a que me devolve este tempo? É como voltar a calçar uns sapatos confortáveis depois de ter esquecido o que isso era. Não que goste da chuva, é mais fácil gostar dos dias luminosos, mas que hei-de fazer, não são como eu e eu gosto de me sentir em casa
13.10.09
Ao Senhor do Circo:
Hoje de manhã acabei de acordar para a realidade enquanto ouvia o Fórum da TSF. Às vezes acordo assim, primeiro acordo um quarto de mim com o despertador, depois outro quarto com o cigarro + duche e finalmente com a trepidação dos jingles dos noticiários da TSF. Ouvi então a notícia sobre a Portaria que proibia aos Circos a aquisição de novos animais (à excepção dos que podemos ter em casa), assim como a reprodução dos existentes. O trânsito começou-me a incomodar ainda mais, estar forçado a estar parado somava-se à impossibilidade de gritar contra a hipocrisia dessa medida. Para complicar a situação a TSF começou a transmitir o seu habitual FORUM dedicado ao esse mesmo assunto. Continuava parado e ouvia agora as intervenções dos ouvintes. O desconforto crescia, anotei o número da TSF para ligar mal chegasse ao escritório, a certa altura ouvi um Senhor a falar, chama-se Vitor Hugo Cardinali e apeteceu-me deixar o carro mesmo ali, na fila da Escola Politécnica que não avançava e correr para o escritório. "desculpe mas tenho de fazer mesmo isto, não está a ouvir a rádio". Lembro-me nestas alturas do que e minha mulher diz sobre as personalidades que são mais atreitas ao enfarte, estou a fazer tudo ao contrário, mas quando se faz já tanto ao contrário mudar uma só coisa não adianta nada e acendo mais um cigarro.
É muito fácil dizer mal do Circo, é tão fácil que qualquer pessoa medianamente honesta deveria deter-se ante essa facilidade. Adjectivos como "grotesco", "dantesco", miserável", "violento", "feio", "buçal", fluem em torrente ante a última lembrança de nós sentados no circo, já depois da idade em que era – e creio que não foi só para mim – não só o maior espectáculo do mundo, como o maior catalisador de sonhos do mundo (as fugas que eu imaginei, as paixões que tive e fantasiei, quase sempre com as meninas do trapézio).
É fácil achar tudo aquilo grotesco e até será esse o sentimento natural do pai que distraidamente acede aos pedidos dos filhos que querem ir ao circo, depois de ouvirem pela enésima vez o discurso estridente de um homem que trata todos com uma deferência que é para desconfiar "estimável público", "cavalheiros", "damas", "honra da vossa visita", reservando uma ainda maior cerimónia aos intervenientes do anunciado espectáculo "a belíssima e rebelde domadora de serpentes", o "príncipe dos magos", a "odalisca dos céus". Naqueles dias de chegada do circo esses anúncios conjugavam-se com o aparecimento dos cartazes com cores dos anos cinquenta e um estilo de desenho semelhante ao dos enormes panos que em cada cinema eram pintados à mão por alguém que trabalhava ainda mais no escuro que o homem da máquina de projectar (assim eu pensava) quando via os cartazes do cinema Rivoli (os que gostava mais eram os do Trinitá). Depois havia o local onde o circo se começava a montar e a admiração de todos que não resistiam a ir ver o que é que aquele circo trazia, em especial os bichos.
Nos últimos anos fui muitas vezes ao circo com os meus filhos e dei comigo a pensar isso mesmo. Isto não é para os miúdos, eu devia protegê-los disto, dos estrondos, das piadolas de mau gosto, da parte em que alguém da assistência é convidado para sair muitas vezes humilhado e com umas palmadinhas nas costas, da parte do número sem graça em que todos ficamos a olhar para o chão.
Porém, depois de passar o umbral do circo, o umbral dos primeiros minutos, quando o ambiente se reorganizava para reconstituir o ambiente do meu circo de infância (a banda, o cicerone apessoado e pedante, as luzes, a expectativa a ansiedade de todos perante o primeiro número de perigo), a minha primeira aversão cedia vencida pela força do regresso ao imaginário de miúdo e pelo regresso do ambiente de fantasia de que é feita uma pista de circo.
Das últimas vezes que fui ao circo tive consciência destes sentimentos contraditórios e acabei mesmo por desenhar todo um espectáculo, num dos blocos moleskine que no final da sessão ofereci ao meu filho mais velho e que ainda hoje diz que é dos meus desenhos o que gosta mais, como também diz, que foi dos dias que passámos juntos um dos que se lembra com mais saudade.
Comecei então a estar atento aos circos que apareciam nos locais onde estava e acabei por perceber que estava a viver os últimos momentos se uma realidade que já não pertencia a este real. As pessoas que fui conhecendo nos circos mais pobres e pequenos já não tinham lugar nesta época de escolaridade obrigatória até ao 12º Ano e de Cirque du Soleil com lotações sucessivamente esgotadas, baterias de luzes, som e bela juventude em doses completamente desproporcionadas com aquelas que eram para nós a nossa noção de circo. Philip Glass, em vez do Duo Ouro Negro, efeitos especiais de laser em vez do apagão motivado pelo desligar do quadro ligado ao gerador.
Há cerca de cinco anos almoçava num restaurante em Vilar de Mouros, na mesa do lado almoçava um homem só, muito só. Eu estava a desenhar por acaso uma imagem de um circo (o circo pelo qual tinha acabado de passar) e entretinha-me a colorir o desenho com as aguarelas que trazia no bolso. Como muitas vezes acontece acabámos por falar sobre o desenho que pediu para ver. Ofereci-lhe o desenho porque percebi que gostou sinceramente dele. Quando lhe disse que era para ele deu-se uma daquelas situações para as quais não há fórmulas de reacção e que me deixam muito aflito, paralisado. O homem a quem dei o desenho chorava. Olhava para o desenho e sem proferir um som, um lamento, um gemido, caíam-lhe as lágrimas pela face. Contou-me depois de pousar o desenho que era o dono do circo, que naquele dia se tinha desentendido com a mulher que lhe cobrava a circunstância de ter envolvido toda a família naquela aventura do circo em sempre tinha estado, primeiro ao serviço de outros circos, depois, quando conseguiu juntar dinheiro suficiente, há uns largos anos, adquirindo o seu. Tinha uma das tendas mais bonitas de circo que havia em Portugal, era pequena, mas era das antigas, com as franjas à antiga e a estrutura geométrica da nossa ideia de circo, a mesma que estava no desenho que lhe oferecera.
Dos vários filhos que tinha só um o acompanhava no gosto do circo, os outros sentiam-se obrigados e pretendiam, tal como a mulher, acabar com o sofrimento de percorrerem tantos Quilómetros para não terem dinheiro para o gasóleo de mais uma deslocação, para não terem que comer, tendo de dar prioridade à alimentação dos animais. Lembrei-me do funâmbulo Valenda, que acabou por morrer numa travessia do arame, açoitado por uma rabanada de vento mais forte, na cidade de San Juan de Porto Rico. O mesmo Valenda que também acabou sozinho, depois de todos os filhos o terem sucessivamente abandonado, tal o risco a que estavam constantemente expostos por um pai que ia aumentado de número para número o grau de dificuldade.
Aquele homem contou-me muitas histórias do Circo, muitas e eu fiquei uma tarde inteira a ouvi-lo e só lhe deixei, como expressão da minha admiração, um pequeno desenho. Não fui capaz de lhe dizer mais do que: "se um dia precisar de alguma coisa, se eu poder ajudar em alguma coisa, sabe eu sou advogado, o que não quer dizer nada, mas teria todo o gosto em auxiliá-lo se um dia vier a precisar". Quando disse isto não sabia ainda o progressivo desencantamento que iria sentir com a minha profissão e que lhe estava a oferecer o que talvez hoje não lhe pudesse proporcionar. O Senhor do circo, saiu, foi buscar a carrinha do anúncio estridente, foi acabar de colocar uns cartazes nas redondezas e à noite vestiu mais de cinco fatos diferentes, repartindo-se entre a apresentação dos números e a execução de quatro números diferentes, número comum a cada um dos membros da sua família.
Hoje, ao ouvir aquela notícia e ao ouvir o Senhor Victor Hugo Cardinali, senti o que acabei de descrever, uma enorme impotência perante uma injustiça, aquele sentimento que não se explica mas que transforma a cor da atmosfera e o sabor que temos na boca como nenhum outro.
Mal cheguei ao escritório tentei ligar para a TSF, atenderam-me. Passados 15 minutos telefonaram-me de volta, ia já falar. Voltaram ao telefone, afinal era melhor desligar para não estar à espera, que voltariam a ligar em breve. Fiquei à espera, enquanto esperava perguntava-me o que iria responder que era, advogado ou pintor, sou mais pintor hoje do que era advogado no dia daquele almoço, e sou, sobretudo, muito menos advogado.
Passados dez minutos ligaram outra vez, pedindo desculpa, afinal já não havia tempo para falar, ficava para a próxima, muito obrigado, agradeceu impecável quem me ligou. Mas eu tinha de falar, nem que fosse só para aquela senhora tão educada e que conseguia falar devagar quando tinha certamente trinta chamadas em linha, ou trinta outras pessoas para lhes dizer o que acabara de me dizer. E falei:
"Não sabe a Senhora o que me custa não poder participar no programa. Era para mandar um abraço muito grande a um senhor de que não me lembro do nome e para lhe dizer que não desista. Era para dizer que nada disto faz sentido. Que neste país não existe uma lei que proteja os animais dos maus tratos. Atirar um cão de um décimo andar, como aconteceu há tempos em Coimbra, só foi crime porque o cão aterrou em cima de um carro, logo foi crime de dano sobre o carro (o cão não tinha dono). Quando há dois anos me pediram para apresentar uma queixa crime porque alguém com um tractor passou por cima de um rebanho de ovelhas, com o único intuito de fazer mal ao proprietário do mesmo, falei com os senhores que agora celebram a publicação desta Portaria e perguntei-lhes: O que eu estou a constatar é verdade? É mesmo verdade que se eu matar um cão a pontapé na via pública não cometo crime nenhum? É mesmo verdade que se eu atirar um cão pela janela do carro junto a uma ponte, para que ele desapareça, nada me pode ser feito em termos penais? É mesmo verdade que neste caso das ovelhas eu apenas possa apresentar uma queixa por crime de dano? Relacionado com o valor das ovelhas? Responderam-me que sim, que era mesmo verdade. Fui então à procura da história deste vazio, deste indecente vazio e encontrei uma referência a um projecto lei que há anos havia sido preparado pelo saudoso Dr. António Maria Pereira", projecto esse que consagraria a ser aprovado uma primeira lei de protecção genérica aos animais. Minha Senhora, desculpe o tempo que lhe estou a tomar, mas sabe como é que foi recebido o Dr. António Maria Pereira quando entrou no Parlamento para apresentar o seu projecto, com alguns deputados a zurrarem. A lei não foi aprovada. Falei então com algumas Associação de Protecção dos Animais e procurei saber qual o empenho destas na aprovação de uma lei desse tipo. Percebi que não tinha interlocutores, que as Associações com quem falara estavam interessadas em "começar por algum lado" como pela abolição das touradas, o fim dos animais que não os domésticos nos circos, o fim dos gansos alimentados até sufocarem em si próprios para fazer fois gras. Desliguei e senti uma enorme tristeza porque estava, mais uma vez, tudo ao contrário.
Sabe, minha Senhora, era isto que eu queria dizer e que se existisse uma lei destas, que na maior parte dos países da Europa que imitamos existe, nada disto podia estar a acontecer. O Governo, as autarquias teriam de zelar pelo cumprimento da lei, se fosse de concluir que os animais não eram bem tratados então que se actuasse. Provavelmente as touradas teriam de acabar, por força dessa lei (o que se pessoalmente lamento tenho de aceitar que, em coerência, aconteça), agora o que não pode acontecer é o que acaba de acontecer hoje, esta tremenda injustiça. Mas era só mesmo para mandar um abraço às pessoas do Circo. Obrigado pela sua paciência."
Desliguei o telefone e lembrei-me de uma frase que li no outro dia, no blog de D. Funes: "As leis inúteis enfraquecem as leis necessárias". Pois é e o que é que fazem às necessárias as leis perversas? Matam-nas, adiam-nas e fazem pagar o justo pelo pecador.
6.10.09
Ainda o "Testamento" de Manuel Buiça





Reprodução da Declaração de Manuel Buiça retirada daqui
Resposta a D. Funes
D. Funes:
Eu não sabia, mas a minha ignorância é imensa, como muito grande o gozo de a ir constatando.
O livro ontem lançado pela Fundação Mário Soares sobre a participação da Maçonaria na Implantação da República chega a parecer ingénuo porque acaba por revelar o que antes era pacífico por opiniões e agora parece tornar-se público por documentos.
Como nele se escreveu, citando Mário Machado Santos (in A Revolução Portuguesa 1907-1910): "A obra da Revolução Portuguesa também à Maçonaria se deve, única e exclusivamente.".
O livro acaba por não só confirmar isso, como por revelar o que tendo nascido para permanecer secreto, acaba por dizer mais do que aquilo nasceu para ser conhecido.
Refiro-me às cartas enviadas pelas lojas ligadas à Grande Loja do Oriente Lusitano Unido, em resposta ao deliberado na reunião de Junho de 1910, onde terá sido decidida a constituição de uma tal Comissão de Resistência que parece ter estado na origem dos acontecimentos de 4 e 5 de Outubro do mesmo ano.
Uma das cartas publicadas (a única que no livro contrasta com o uníssono da aceitação do então deliberado) vale a pena ser transcrita, ainda que abusando deste lugar (em vez de colocar esta resposta na resposta ao seu comentário, que agradeço, o que não é possível porque excede o número de 4 mil e não sei quantos caracteres de limite máximo):
"A RESPEITÁVEL LOJA ESTRELLA D'ALVA:
Caros e Respeitáveis Irmãos,
Esta Respeitável Loja reuniu extraordinariamente para apreciar as pranchas (circulares nºs 12 e 19) de 20 e 30 de Junho, e começando por apreciar a forma fácil e leviana como as mesmas pranchas lhe foram dirigidas, attentos o segredo e a gravidade do assumpto a que ellas se referem, pois não só errou o nome do nosso Venerável Mestre Interino João Rodrigues Paula, como outras vezes tem succedido, chamando-lhe José e não João, mas também por terem vindo em envelopes quasi que descolados de forma a poderem ser abertos por qualquer curioso, ou por qualquer inimigo da Ordem como muitos existentes na Repartição dos Correios e Telegrafos.
Entende esta Respeitável Loja que assumptos d'esta natureza deviam ser tratados pessoalmente por delegados do Grande Oriente Lusitano Unido e nunca por escripto e pela forma como estão sendo. Depois de larga discussão, apreciando-se com toda a serenidade a doutrina das mesmas pranchas esta Respeitável Loja votou e approvou, para vos ser enviada a seguinte:
Moção
A Respeitável Loja Estrela d'Alva do valle de Coimbra, reunida extraordinariamente para apreciar as pranchas emanadas do Grande Oriente Lusitano Unido afim de estabelecer guerra aberta contra as eis e excepção, e contra os inimigos da liberdade que tanto teem perseguido aqueles que pretende defender as causas justas perante a sociedade;
Considerando que o período de maior efervescencia de perseguição se assignalou quando no Governo o partido progressista aliado à reacção clerical;
Considerando que com a subida ao Poder do novo Governo essas violencias cessaram e por enquanto não ha vestigios de novas perseguições, havendo até esperanças que se adoptem medidas liberaes tendentes a fazer entrar na ordem o elemento reaccionario;
Considerando que a Maçonaria tem por dever auxiliar o Governo nas suas intenções de reformaras leis de excepção, como já anunciou, e nunca contrariar este plano o que seria anti maçonico e liberal;
Considerando que a Maçonaria pela sua lei, deixa livre aos seus adeptos qualquer opinião política, e assim tem admitido no seu seio Irmãos de todos os partidos e muitos empregados públicos, que apesar de não serem republicanos, são liberais sinceros e desapaixonados, e que desejam a paz e o bem-estar da sua Pátria e Família;
Considerando que das pranchas em questão se vê visivelmente pretender-se desviar a questão religiosa para a questão política o que é contrário às leis em vigor;
Considerando finalmente que esta Respeitável Loja tem ausente o seu Venerável Irmão Capitão Cruz; o seu secretário Raúl Vieira, que teve de se retirar para Lisboa, e muitos outros Obreiros do seu quadro que já estão no gozo de férias;
A mesma Respeitável Loja com o devido respeito resolve não tomar interferencia directa ou indirecta no citado e pretendido movimento a que se referem as aludidas pranchas afirmando contudo a sua solidariedade maçonica quando para isso haja necessidade.
Traçado em lugar oculto aos profanos aos 12 de Julho de 1910 (era vulgar)
O Venerável Mestre Interino
João Rodrigues de Paula grau 29"
Dou-me ao trabalho de transcrever aquela carta pelo que parece confirmar que mesmo em 1910 não seria pacífico que entre a própria Maçonaria fosse essencial aos seus princípios a instauração da República.
Quanto à não punição dos seus agentes e ao desinteresse de todos nessa tarefa, julgo que haverá que distinguir entre o pós Fevereiro de 1908 e o pós Outubro de 1910.
É certo que o processo desapareceu, como é certo que neste momento não se trata de punir mas e reconstituir uma história.
O que o livro em questão parece trazer de novo é a circunstância de Aquilino ter testemunhado em 28 de Janeiro de 1910 o testamento/confissão de Manuel Buiça, três dias antes do regicídio. Poderá no entanto ser um lapso e haver confusão entre o apadrinhamento efectivamente feito pelo Aquilino do filho mais velho do mesmo Buiça e o "apadrinhamento" daquela carta suicida (que poderá não ter acontecido, ao contrário do que lá está escrito.
UF, Fim.
