19.6.09

O Prazer de Nós



Há um pequeno livro de Marcel Proust que se chama o Prazer da Leitura e que é um dos livros que eu gosto de oferecer (os outros três - que também são pequenos - são As Noites Brancas, o Pedro Páramo e a História Universal da Infâmia). É um mini, mini, mini ensaio sobre o que o título diz e começa com uma descrição do pensamento de um autor Inglês sobre o mérito da leitura.


Diz esse autor - segundo Proust - que a leitura é uma experiência humana única porque permite a qualquer um experimentar o outro, sem a limitação do tempo e do lugar: Podemos através da leitura privar com pessoas que nunca teriam sido nossas amigas e mais, com quem jamais nos teriamos cruzado. A simples possibilidade e prática das traduções amplia essa possibilidade consideravelmente, derrubando mais uma limitação : a da língua. A leitura era assim - para esse autor Inglês - a experiência da humanidade por excelência. Como nenhuma outra actividade, ler, permitiria a qualquer um conhecer os melhores, ser amigo de almas gémeas milenares ou que para além de milenares tivessem vivido no outro lado do mundo e falassem línguas inacessíveis para o nosso conhecimento. Em síntese, os livros seriam a grande experiência de fraternidade humana.


A certa altura o Proust, depois de ter descrito a respeitável posição do autor Inglês. Descrevendo-a não só honestamente como acrescentando à descrição a sua própria competência de escrita (que era verdadeiramente superior), levando-nos a não só concordar com o que dizia o tal Inglês como a pensar: "e que bem dito e que "bem caçados" os exemplos."


A certa altura Proust dizia abruptamente. Mas o prazer da leitura não é nada disso. Está errado o nosso amigo Inglês. O prazer da leitura é o prazer do diálogo que estabelecemos connosco no momento da leitura. É falso que o diálogo principal seja estabelecido com o outro que existiu ou existe e escreveu. No silêncio da noite, no recolhimento do tempo de ler, nas impressões e sensações que se vão formando com o acto de ler mais do que o outro, experimentamo-nos a nós e é esse o prazer maior da leitura, é o prazer de estar connosco de nos descobrirmos.


O pai de um amigo que infelizmente já faleceu (Dr. Manuel Canijo) dizia que o sucesso de Fernando Pessoa era que fazia sentir uma nação inteligente, fazia cada Português que o lia sentir-se inteligente, revendo-se no bem dito daquilo em que reecontrava o seu pensamento, reconhecendo ao "outro" (qualquer dos heterónimos, ainda que o Bernardo Soares seja quanto a essa virtude o melhor exemplo) essa capacidade de expressar o que ele próprio leitor pensava ou sentia, mas que não teria sido capaz de dizer tão bem. No outro dia, querendo cumprimentar um blogger, de que gosto muito dei comigo a escrever "Pensa bem e escreve melhor". Deveria ser a isso que o Dr. Manuel Canijo se referia quando falava que ao ler Pessoa os Portugueses se sentiam mais inteligentes.


Se o Prost estivesse vivo e frequentasse os blogs, o facebook as fantásticas TED conferences, actualizaria certamente o que disse sobre o Prazer da Leitura. Não tenho sobre isso qualquer dúvida, estamos na net como mais uma forma de estar connosco, através dos outros - o que não quer dizer oportunismo ou exploração, quer dizer que o constante diálogo que temos com o que somos e nos damos a cada momento, encontra nestas últimas experiências da "leitura", uma variação, desse prazer de nós, de estar connosco.

5 comentários:

Marta disse...

dos mencionados, Tiago, só não li Pedro Páramo e a História Universal da Infâmia!
vou anotar!

«O prazer da leitura é o prazer do diálogo que estabelecemos connosco...»

TÃO VERDADE! digo eu!
gostei da reflexão. muito.

bom fim semana;
boas escritas e boas leituras
...que o meu será um pouco alargado :) com mais leituras e menos escritas!

Mocho Falante disse...

Excelente texto, não conhecia as propostas já estão anotadas para uma busca mais cuidada

Obrigado pela partilha

Susana disse...

Olá!

A blogagem da Aldeia da Minha Vida foi um grande sucesso, graças à sua participação e divulgação.

Convido-o(a) a participar na próxima blogagem de Julho “ Férias na Minha Terra”.

É uma oportunidade única para demonstrar a todos que vale a pena passar férias no nosso país, especialmente na nossa querida terra, seja ela aldeia, vila ou cidade.

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Para premiar a sua participação, vamos atribuir ao melhor post um fantástico prémio e ao melhor comentário também.

Muito obrigado pela sua atenção!

Votos de um feliz dia!

Susana Falhas

Tiago Taron disse...

Cara Susana, muito obrigado pelo convite. Apesar de não ter participado na blogagem que refere (a não ser aplaudindo um texto notável da Marta do "Há Vida em Marta"), procurarei honrar o desafio. Parabéns pela iniciativa

Marta disse...

Tiago,

tem lá um desafio. se lhe apetecer responder, claro!

...e obrigada!