5.12.13


(Caxias, 5 de Novembro de 1995)

Campo do Ligo

Havia um caminho, ao lado do rio, por onde ele gostava de ir passear. Um dia foi busca-la, encontrou-a na copa a separar espargos e foi-lhe mostrar esse caminho.
Levou-a muito devagar, ainda havia tempo até a hora do jantar. Caminharam como gostavam de o fazer, encaixados, com o braço dela a passar-lhe pelas costas e a mão dele no ombro dela, puxando-a para si.
Falavam muito pouco de si próprios. Falavam mesmo pouco entre si, apenas o prático, o que era necessário falar sobre a organização da casa, do cuidado dos filhos, do que cada um tinha de fazer em relação aos assuntos comuns, ou do que ambos tinham de fazer.
Naquela tarde ele passara ele estivera a arrumar a tralha que se amontoava numa das lojas junto à Adega. Encontrara algumas coisas que lhe fizeram lembrar os dias em que chegara àquela casa, àquela aldeia pequenina, a Gondarém.
Deixou as arrumações e saiu em direcção ao rio, para voltar a percorrer o caminho. Foi no durante esse passeio que ele se lembrou que nunca lho tinha mostrado, que nunca lhe tinha contado porque é que aquele caminho era tão importante para ele. Os filhos já tinham cinco e três anos e agora lembrava-se que nunca tinha contado à mulher que, com oito anos, depois do pai lhe ter dito que tinha de ir estudar para a metrópole, encontrava todas as forças nos passeios que fazia por aquele lugar. Foi então chamá-la, antes que escurecesse, procurou-a como se lhe quisesse mostrar uma coisa que acabara de descobrir. Quando a encontrou, na copa, disse-lhe:
Vem comigo que eu quero mostrar-te uma coisa:
Ela olhou-o, não disse nada, tirou o avental e deu-lhe o braço. Foi com ele como ia todas as vezes em que havia uma novidade para ver. Prosseguiu ao lado do marido por aqueles atalhos por onde já aprendeu a andar. Tentou adivinhar pela direcção que tomavam, para onde e para ver o que ele a estava a levar. Iam para o rio. É um barco, pensou. Ou uma nova leira. Como sempre ela não perguntou nada e ele nada antecipou. Quando finalmente chegaram à entrada de um pequeno carreiro de terra batida, ladeado de um dos lados com altas espigas de milho e, do outro, por choupos que impediam a visão do rio que se ouvia correr por trás. O caminho era comprido e ia estreitando-se na perspectiva dos pés de milho e dos ramos emaranhados dos choupos.
Como ela era muito mais baixa que ele, não conseguia ver nada para nenhum dos lados, só as ramadas dos choupos e as folhas do milho. Pararam na entrada desse caminho e ele disse-lhe então:
Quando vim de Angola para aqui,  depois dos trabalhos de casa, ou depois da escola, corria por este caminho fora vezes sem conta. Ia e vinha, ia e vinha, quanto mais depressa corresse e maior deslocação do ar provocasse, mais o ar cheirava ao mesmo que cheirava em Africa.
A meio da corrida fechava os olhos e continuava a correr, orientando-me pelo ruído ou pelo toque dos pés de milho ou das folhas dos choupos. De olhos fechados corria e pensava que estava de novo a voltar para Angola, para junto do meu pai. O cheiro, quando o situava com precisão permitia-me fingir que estava muito perto, que era uma questão de metros, corria mais, chegava ao fim do caminho e voltava outra vez para trás, até que já não conseguia mais correr. No principio atirava-me para o chão e chorava, não importa a posição em que tivesse caído. Depois, deixei de chorar e passei a sentar-me numa pequena enseada que há a meio do caminho, ali, a olhar para a água, a olhar para a ilha  e a pensar na distância que me separava de Angola e do meu pai.
Continuaram a andar pelo carreiro. Ela experimentou inalar discretamente o ar daquele lugar, que lhe parecia ter o mesmo cheiro de todos os milheirais, cortado apenas pelo aroma frio do rio.

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